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lygia telles

— Por que escrevo? Ah, que difícil responder a essa pergunta. Tentarei dar alguma resposta e sei que já estou entrando assim numa zona imprecisa. Vaga. O escritor escreve porque tenta recompor, quem sabe?, um mundo perdido. Os amores perdidos. Não será uma tentativa de recuperar a família que ficou lá longe, assim despedaçada? Ou não será o próprio eu despedaçado que ele está querendo resgatar? E se nessas personagens que procura desembrulhar ele não estiver tentando, na realidade, desembrulhar a si mesmo?

— O paraíso perdido. Nesse paraíso não está a infância? Veja bem, respondo à sua pergunta com outras perguntas e de repente cheguei à minha infância. Uma infância feliz? Infeliz? Aqueles dias de tanto sol e nuvens brancas que se transformavam inesperadamente em raios despejando as tempestades, não, nenhuma nitidez na menininha que ria ou chorava aos gritos.

Sei que gostava de me deitar no chão para ficar olhando as nuvens meio paradas, formando figuras. Também gostava de ouvir minha mãe tocar piano, ela era pianista. E de sentir o cheiro forte do doce de goiaba que ela mexia no tacho de cobre. Meu pai fumava charuto e eu gostava de aspirar aquela fumaça azul, ah, o anel vermelho-dourado que ele tirava do charuto e eu enfiava no dedo. Mas o anel era largo, eu tinha que fechar a mão para que ele não caísse.

Minha mãe rezava ajoelhada diante do quadro do Sagrado Coração de Jesus. Rezava em voz alta e pedia milagres enquanto eu ia me esconder no quintal. Costurava muito pedalando na máquina Singer mas acho que gostava mesmo era de tocar piano.

Meu pai era muito alto, falava grosso, usava gravata-borboleta e palheta branca com uma larga fita preta. Na delegacia era chamado de doutor e eu imaginava que devia ser um homem importante porque todo mundo, fardado ou não, obedecia quando ele dava ordens. Mas penso que gostava mesmo era de jogar, apostava nos números. Herdei o vício, eu jogo com as palavras, aposto nas palavras, um jogo perigoso? Não sei, sei que é fascinante.

Hoje nós perdemos mas amanhã a gente ganha. Roleta. Eu nem respirava enquanto a bolinha de marfim vinha aos pulos e parava de repente. Então o homem magro estendia a pá comprida e começava a recolher as fichas. As nossas fichas. Mas ele não parecia se preocupar muito porque logo em seguida, com aqueles mesmos gestos largos, recomeçava a amontoar outras fichas nos números da mesa. Eu achava lindo aquele seu gesto amplo, generoso mas ainda assim, tremia. Às vezes, ele me consultava, E agora? No vermelho?

Disse um dia que ganhou num jogo de cartas uma parte grande do Morro do Ouro. Ele é mesmo de ouro, pai? perguntei e ele acendeu o charuto: Todo de ouro e sou o dono de um pedaço disso tudo. Era um fim de tarde, o sol vermelhão mergulhando em chamas por entre as pedras. Olhei e vi o morro inteiro dourado.

— As pajens de mãos fortes e duras me esfregavam com força quando me davam banho. E faziam os tais papelotes bem apertados em dia de procissão, meu cabelo era escorrido e anjo tem que ter o cabelo crespo. Sou do Signo de Áries, domicílio do planeta Marte. A cor do signo é o vermelho, a cor da paixão. Da guerra, “Estou em paz com a minha guerra”, digo citando Camões.

Mas também aposto no verde. A minha bandeira (se tivesse uma bandeira) seria metade vermelha e metade verde, gosto muito do verde, a única cor que amadurece e que me faz pensar na esperança. Que se mistura ao vermelho com seus laivos de cólera, às vezes, a cólera.

— Leitores? Eu sei, eu sei, os que escapam do analfabetismo e da miséria, esses não têm o hábito da leitura. Ou quando vão às livrarias, como obedientes colonizados, preferem os autores estrangeiros que naturalmente estão mais expostos. E fortalecidos  ela propaganda da televisão e do cinema. Ainda assim, essa servidão da esperança que herdei daquele pai jogador apalpando os bolsos vazios no fim da noite. Les jeux sont faits! avisava o homem magro com cara de destino. Mas amanhã a gente ganha.

Leitores, leitores. Não somos lidos na América Latina, quem nos conhece na Venezuela? No Chile? No encontro La Nueva Narrativa Latinoamericana, na Colômbia, fui para falar da mulher na literatura brasileira e acabei informando ao público qual era a língua falada no Brasil, perguntaram e eu respondi, falamos e escrevemos em português mas o modo é brasileiro, acrescentei bem-humorada, não perder o humor. Informei ainda quais eram os nossos usos e costumes, sobre os quais os simpáticos camaradas de letras tinham uma vaga ideia com aqueles coloridos de folclore.

— Sou escritora e sou mulher — ofício e condição humana duplamente difíceis de contornar, principalmente quando me lembro como o país (a mentalidade) interferiu negativamente no meu processo de crescimento como profissional. Eu era reprimida mas disfarçava bem a minha timidez em meio à imensa carga de convenções cristalizadas na época. Não baixar a guarda, repetia a mim mesma, não baixar a guarda! Tinha aprendido esgrima nas aulas de Educação Física mas não era atenta porque vinha o adversário e haaá! espetava com a ponta do florete o meu coração exposto, era um pequeno coração de feltro vermelho pregado no lado esquerdo da túnica. Penso hoje que a minha libertação foi facilitada durante as extraordinárias alterações pelas quais passou o Brasil desde a minha adolescência até os dias atuais.

Segunda Guerra Mundial. Eu era muito jovem quando estudava na Faculdade do Largo de São Francisco e ao meio-dia saía correndo para tomar uma coalhada. Em seguida, assinar ponto na Secretaria de Agricultura onde era uma pequena funcionária. Ainda assim, arrumava tempo para a subversão, namorava pouco, é verdade, mas fui presença constante nas passeatas contra a ditadura de Getulio Vargas. E agora eu me lembro de uma famosa passeata que fizemos com um lenço preto amarrado na boca, o chefe da Segurança Pública já tinha avisado, podíamos nos agrupar mas não falar, seria a passeata do silêncio. Daí a ideia do lenço. Eu me lembro, fui encarregada com outro colega de ir comprar a gaze preta numa loja de tecidos na Rua Direita.

Então pedi ao caixeiro, quero aquela gaze ou filó preto, desse tipo para cobrir o caixão. Ele trouxe a peça para o balcão, apanhou a medida métrica e quis saber quanto devia cortar. Fiquei na dúvida, a passeata ia ser concorrida, não? Cochichei com o meu colega e decidimos, Corte até uns três metros, ordenei e o caixeiro arregalou os olhos, Mas o defunto é tão grande assim? Então desatamos a rir, a gente gostava de rir.

— Fala-se em modernização, na valorização da mulher como artista. Mas penso que neste século (segundo uma ideia de Paulo Emílio Sales Gomes) a modernização em geral só modernizou a burguesia. Pertenço, por exemplo, a uma corporação que precisa procurar sempre outros recursos além dos relativamente modestos proporcionados pela atividade literária, são raros os escritores que ficaram ricos com o dinheiro dos livros. Os outros ficam aí se virando na voragem de uma vida que virou um artigo de luxo. Confesso que há muito me vejo reivindicando maior valorização no campo da palavra escrita, Combati o bom combate.

Quanto às mulheres propriamente burguesas, essas não precisam mesmo de nenhum amparo.

— Não somos inocentes e por isso sabemos que há no Brasil três espécies em processo de extinção: a árvore, o índio e o escritor. Mas isso eu escrevi há alguns anos porque não é mais escritor que está em processo de extinção, mas sim o leitor que está em fuga desabalada.

Quanto à árvore creio que não é preciso acrescentar mais nada, que tristeza ver as florestas sendo devastadas. E o índio? Quando andei pela África, um dos homens da Unesco me disse: “Cada vez que morre um velho africano é assim como uma biblioteca que se incendeia”. Será que antes de chegarmos à solução final do nosso problema indígena teremos ainda tempo de captar um pouco desse legado? Um pouco da sua arte e da sua vida nas quais o sagrado e a beleza se confundem para alimentar a nossa cultura e o nosso remorso.

— E resistimos, testemunhas e participantes deste tempo e desta sociedade com o que tem de bom e de ruim. E tem ruim à beça, inspiração é o que não falta aos que escrevem. E falei agora uma palavra que saiu de moda e é insubstituível, inspiração.

Algumas das minhas ficções se inspiraram na imagem de algo que vi e guardei, um objeto? Uma casa ou um bicho? Outras ficções nasceram de uma simples frase que ouvi e registrei e um dia, assim de repente a memória (ou tenha isso o nome que tiver) me devolve a frase que pode inspirar um conto. Há ainda aquelas ficções que nasceram em algum sonho, abismos desse inconsciente que de repente escancara as portas, Saiam todos! A loucura, o vício, a paixão, ah! eu teria que ter o fôlego de sete vidas, assim como os gatos, para escrever sobre esse mar oculto.

(em “Durante aquele estranho chá”, crônicas, lançado pela Companhia das Letras, 2002/2010).

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