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SOBRE O SILÊNCIO

hoje não viemos discutir projetos
hoje não viemos pedir
hoje viemos como alguém que visita sua casa
que vem dizer pra família
sobre as dificuldades de se tecer a invenção
sobre o abismo que se abre para além do entretenimento
sobre o prazer que é lutar pelo que se acredita
hoje viemos dizer pra família
que não vamos mais terminar os estudos
e que nossa carne curtida, nosso olho vermelho,
nosso sorriso encarnado e, principalmente, nosso silêncio
dizem tudo.

NAVILOUCA

quero encontrar você
o dia amanhecendo
num buteco
tomando média
olhos claros
translúcidos
– você, aqui?

de repente nós dois
e o resto.

a gente vai
andando andando
dando risada
falando bobagem
pisando a paisagem
viagem

de repente
numa esquina
de terno o tempo
vai passar
apertado apressado.
a gente pára o tempo.
diz a ele, calmamente,

como é a felicidade
e vai seguir seguir seguir…

TEMPO

no início era o começo.
o depois veio vindo devagar.
o antes veio depois do depois.
só quando esse se estabeleceu.
no princípio era o agora.
isso demorou até que
tudo virou antes e depois.
então uma revolução peluda
o agora voltou ao trono.
antes e depois viraram
falta do que fazer.
e tanto fizeram
que o agora virou tudo
e o tudo, nada.
de volta ao princípio
o agora congelou.
o antes fica pra depois.

ANA C

gosto muito de olhar um poema
até não mais divisar o que é
respiração noite vírgula
eu ou você

gosto muito de olhar um poema
até restar apenas
voceu

(Todos os poemas retirados de Belvedere [1971-2007] – Cosac&Naify / 7letras).

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