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RESSURREIÇÃO

A poesia entra no sonho
como um mergulhador entra num lago
A poesia, mais corajosa que ninguém,
entra e cai
de prumo
em um lago infinito como o Lago Ness
ou turvo e infeliz como o Lago Balaton.
Contemplada do fundo:
um mergulhador
inocente
envolto nas penas
da determinação.
A poesia entra no sonho
como um mergulhador morto
no olho de Deus.

OS DETETIVES PERDIDOS

Os detetives perdidos na cidade escura.
Ouvi seus gemidos.
Ouvi seus passos no Teatro da Juventude.
Um voz que avança como uma flecha.
Sombras de cafés e parques
frequentados na adolescência.
Os detetives que observam
suas mãos abertas,
o destino manchado com o próprio sangue.
E você não pode sequer recordar
onde estava a ferida,
os rostos que certa vez amou,
a mulher que salvou sua vida.

A SORTE

Ele vinha de uma semana de trabalho no campo
na casa de um filho da puta e era dezembro ou janeiro,
não me lembro, mas fazia frio e ao chegar em Barcelona a neve
começou a cair e ele tomou o metrô e chegou à esquina
da casa de sua amiga e a chamou por telefone para que
descesse e visse a neve. Uma noite linda, sem dúvidas,
e sua amiga o convidou para tomar café e logo fizeram amor
e conversaram e bem depois ele acabou dormindo e sonhou
que chegava numa casa no campo e caía a neve
atrás da casa, atrás das montanhas, caía a neve
e ele se encontrava preso no vale e telefonava
para sua amiga e a voz fria (fria, mas amável!) lhe dizia
que desse buraco imaculado não saía ninguém, nem o mais valente
a menos que tivesse muita sorte.

ÀS MOSCAS

Poetas troianos
já nada do que podia ser vosso
existe

Nem templos nem jardins
nem poesia

Estão livres
admiráveis poetas troianos

.

(Todos retirados de “Los perros románticos 1980-1998”, ed. El Acantilado, 2010. Tradução: Marcos Mariani Casadore).

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