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Gabriel García Márquez

“[…] e se nessa altura não se abandonara ao alvedrio da morte não tinha sido porque lhe faltasse raiva para morrer, mas porque sabia que estava condenado sem remédio a não morrer de amor, sabia-o desde uma tarde dos princípios do seu império, em que recorrera a uma pitonisa para lhe ler nas águas de um alguidar as chaves do destino que não estavam escritas na palma da mão, nem nas cartas, nem nas borras do café, nem em nenhum outro meio de averiguação, só naquele espelho de  águas premonitórias em que se vira a si próprio morto de morte natural durante o sono do gabinete contíguo à sala de audiências, e vira-se caído de borco no chão como tinha dormido todas as noites da vida desde o nascimento, com o uniforme de cotim sem insígnias, as polainas, a espora de ouro, o braço direito dobrado debaixo da cabeça, para lhe servir de almofada, e numa idade indefinida entre os cento e sete e os duzentos e trinta e dois anos.”

De “O Outono do Patriarca”

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