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E não é então, compadre, que agosto aconteceu de novo sem você e os teus bigodes mergulhados no chope pelas quebradas curitibanas? No fraco inverno deste ano, já vai pelas vias expressas, a sonatina inquieta do ipê amarelo. Poeteiros de um mundo ateu, eu e você, nós dois, na estrada, outros invernos, fundos e pesados verões, eu e você, compadre, pasmos.

Do tugúrio observo as instruções do tempo, mania antiga, só você sabe, e alvoroça dentro que, não fosse a tua morte precoce em mil novecentos e oitenta e nove, bem poderias estar aqui, para observar ambicioso o mundo adolescente em flor da rua curitibana, nossa cidade, a hora dela em nós andando. De seu lado, compadre, daí de seu desarvorado terreno, não sei como se processam as percepções mais finas, aquelas afetas ao agosto de teu sempre aniversário, agora que és pedreira, e moves a tua fala abaixo, muito abaixo da linha do silêncio.

Incorrigíveis, compadre, continuamos às vezes no feio hábito de arcar com o inverno nas costas como se fosse num confessionário. Não importa, sufocaremos líricos num mar de auroras. Nume de coisas, está aí o agosto e não adianta espernear: mais um ano passa por ele sem desmanchar-lhe o desenho.

Nem melhores nem piores que você, nós, os sobreviventes, e o novo inverno, seguimos apenas um pouco mais abusados, e talvez menos inocentes, enquanto você pega teus tênis no ar e faz deles um algodoal sozinho, e pisa na nuvem como quem evita chover. Ah, compadre, aqui brinca pelos quintais o pardal monótono e desmoronam sonetos pelo tapete. Mas prometo me esforçar com bravura, para colher, caso chova, um haicai que pingue de nosso teto crivado de goteiras. Há de existir um, para além de nosso teto humilde, diamante e úmido como nascer.

Não se importe com o tom desusado destas linhas, não peço piedade por nós, embora musgos cresçam-lhe pela boca e siga em mim essa atividade incessante no coração, assim como se fosse um vício que o agosto faz. Sei também que sozinho me ocupo deles, dos agostos de agora, eu e a minha sombra de cão para sempre impressa no ladrilho da varanda. Veio a lua e não foi possível, compadre, deter o exato fantasma.

Este agosto, vês?, o ar quebrado da noite já começa a pôr doente o esguio solteirão, nosso vizinho, lobisomem furtivo, de dentadura impecável, aquele dado às letras e que no ônibus com destino ao Xaxim, na hora morta da tarde, viaja sentado no último banco, no dedo um rubi trêmulo.

Coisas do agosto, compadre, como tudo a seu tempo e vento.

A gente mesma sente que mexe dentro um contágio, qualquer coisa que, para além de agosto, é mais um ímpeto que uma determinação.

Amanhã nos salvaremos de nós mesmos, nossos sujos pecados que agosto não conta, e um enxame de virtudes assim aos bailes e floreios.

Sustenta o ar um arranjo de parnasos luxuriantes, fililenos, alcachofras, odisséias, eucaliptos, árabicos, ulisses, hebraicos, homéricas; equilibra no escassso ar, compadre, de novo, o efêmero agosto. Pela primavera que já se insinua, Deus rima sílfide com velocípede, e rima à toa, movendo uma agitação de troca, câmbios, desandando o horário, olhando por nós o novo dia, brincando de despregar os meses da folhinha e de anunciar pelos telhados, por onde um gato azul passeia, a hora outra e nova e móvel.

Compadre, neste teu aniversário, ainda uma vez todas as coisas tempesteiam.

Só a tua cara no porta-retrato não muda de ano.

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