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Considerado uma das maiores vozes do humor brasileiro, Millôr transitou entre vários gêneros.

Jornalista, dramaturgo, tradutor, desenhista e escritor, começou sua carreira na revista O Cruzeiro, tornando-se, ao longo dos anos, uma das principais figuras do cenário cultural no país.

Nasceu em 16 de agosto de 1924 – embora, em sua certidão, a data oficial seja 27 de maio e, entre a família haja, como disse Millôr, “desencontros de opinião”. Após sofrer um acidente vascular cerebral, em 2011, faleceu no último 27 de março.

***

Os que já caíram, ah!

No Paraíso, na rua, na História,
Na escada.
Caiu Humpty Dumpty
Na aventura de Alice.
Caiu a própria Alice.
Caiu a mãe de Hamlet,
Caem as folhas no outono,
Mais tristes quando cai a tarde.
E depois do primeiro homem
E da primeira mulher
Todos os grandes caem
Em seu dia e hora.
Caiu Saul, e Jonas, e Golias,
E também os muros que cercavam
Os poderosos donos de Jericó.
Caiu Tróia e caíram os romanos.
Lúcifer levou nove demorados dias
Em sua assustadora queda,
A mais profunda queda registrada.
Há grandeza
Nos homens que caem.
Não se respeitam, porém, as decaídas.
Mas ambos ocupam o mesmo lugar
Na composição eterna da caída
Humana. A gravidade é a negação da vida
Desde a invenção dos tempos.

*

DARWIN, ainda

O homem veio do símio.
Acho isso lindo.
Mas tem alguns
Quinda estão vindo.

*

Receita de homem novo

(Os sábios que me perdoem, mas a piedade é essencial)

Com um pouco de Freud
Envolto em celulóide
Um tanto de marxismo
Embrulhado em jornalismo
Bastante violência
Alguma inteligência
Desprezo da verdade
E alma bem fria
Se faz a humanidade
Do robô da ideologia.

*

Monólogo Madrigal Maquiavélico

Minha mão martelando machucou minha mulher.
Mandei medicá-la mas minha mulher morreu.
Maria Matos Martins, minha mulher, morreu.
Minha mão malvada!
Martelo mortal.
Mequetrefes maldosos mexericam.
Multidão malícia morte maneira minha mulher mineira.
Mas matarei murmúrios mandando montar mausoléu magnata.
Memória minha mulher mulata.
Majestoso monumento mortal.
Mostrará minha mágoa matrimonial.
Mármore marota mensagem.
Mausoléu monumental malandragem.
Malandragem mercenária.
Mistificando morte minha mulher milionária.

*

Poema dedicado às encruzilhadas da vida e da morte

(Prudente de Morais x Vinicius de Morais)

Numa de nossas esquinas
Mais legais
Foram acabar juntos
O Prudente
E o imprudente
De Morais.

*

Soneto

Penicilina puma de casapopéia
Que vais peniça cataramascuma
Se parte carmo tu que esperepéia
Já crima volta pinda cataruma.

Estando instinto catalomascoso
sem ter mavorte fide lastimina
és todavia piso de horroroso
e eu reclamo – Pina! Pina! Pina!

Casa por fim, morre peridimaco
martume ezole, ezole martumar
que tua para enfim é mesmo um taco.

e se rabela capa de casar
estrumenente siba postguerra
enfim irá, enfim irá pra serra.

*

Poeminha dubitativo

Não,
Eu não tenho medo do fim.
Mas,
E se o mundo terminar
Antes de mim?

*

Hai-kais:

Diz-me de quem sais,
Grito-te meus ais –
Somos hai-kais iguais.

O espelho nem se importa:
Se o outro
Se corta.

Violência, terremoto,
Fome e promiscuidade
Dão cada foto!

Nas pistas
Aviões cheios
De arrivistas.

O veludo
Tem um perfume
Mudo.

Ao anoitecer
Um tiro evita
O envelhecer.

 

*Todos os poemas e hai-kais foram retirados do site oficial de Millôr, que contém diversos outros materiais.

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