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Em maio, mês de aniversário de Rubem Fonseca, Manoela Sawitzki e Ramon Mello prepararam, para o Portal Literal, uma matéria na qual doze escritores relataram sua primeira experiência com uma obra de Rubem Fonseca. Veja o que alguns deles disseram:

Joca Reiners Terron:

Em meados dos anos 90, por aí, eu era um leitor quase exclusivo de poesia, pois queria ser poeta. Daí fui viver numa república onde vivia meu amigo Beto Bombig, hoje editor do Estadão. Ou foi o Beto que foi viver na minha casa? Ele tinha se separado. Enfim. Foi logo quando saiu aquele livrão preto que reunia os contos do Rubem Fonseca. Foi o Beto quem me emprestou sua edição de “Contos Reunidos”. Fiquei louco com aquilo, então eu não sabia da existência de ficção escrita por brasileiros vivos. O Rubem foi o primeiro autor brasileiro contemporâneo que li. Anos depois, quando publiquei meu primeiro romance (“Não há nada lá”, 2001), enviei um exemplar ao Rubem. Eis que um dia volto do trabalho e encontro um telegrama dele, agradecendo o livro. Transformei o telegrama num ímã de geladeira, que acabou desaparecendo em alguma mudança ou naufragando junto com um divórcio.

José Eduardo Agualusa:

Rubem Fonseca foi muito importante para a minha formação. Eu tinha uns 18 anos quando li “Feliz Ano Novo” e aquele livro foi uma revelação para mim – descobri que havia outras pessoas que também tinham lido o livro e estavam como eu, dominadas por aquela descoberta. A partir dessa altura li tudo do Rubem. Tenho todos os livros dele. Faz parte da minha família. Acho que em algum dos meus romances se sente um pouco a voz dele. Aliás, partilho com ele uma obsessão por anões.

Marcelino Freire:

Na fonte do Fonseca: Rubem Fonseca influencia mesmo quem não tenha sido influenciado por ele. Digo: a grandeza do autor de “O Cobrador” é exatamente esta. Tudo, depois dele, vira influência dele. Escreveu curto: bebeu na fonte do Fonseca. Escreveu violento: é o Fonseca. Cinematográfico: Fonseca na veia. Porque a literatura feita pelo Rubem foi pontual, assim, para apontar novos caminhos. Essa escrita sem delongas. Esse vexame que a linguagem dele causa. Agora e sempre. Eu, de minha parte, sinto que escrevo, digam os, seco, influenciado pelas primeiras leituras que fiz dos livros do Graciliano Ramos. Nordestino que eu sou, foi aí onde viajei primeiro. Tive contato com os livros do Rubem bem depois. E, é claro, fiquei impactado e tomado pelo seu verbo. Pelos seus contos matadores. Seus contos raivosos. Perversos. Ter, este ano, dois grandes autores que fazem, ambos, 87 anos, é um privilégio. O outro é o Dalton Trevisan. Curiosamente, dois autores que vivem reclusos. Mas que, mesmo distantes, lançam suas sombras sobre nós. Toda vez que dizem que o que escrevo vem do Fonseca, sinto-me grato. Fazer parte dessa família literária é um presente e tanto. Parabéns ao Fonseca. Felicidades para o Dalton. Embora sejamos nós, os leitores, os que, com eles, sempre saímos ganhando. Eta danado!

Michel Laub:

Quando eu tinha uns dezoito, dezenove anos, em coisa de um semestre li quase todos os livros do Rubem Fonseca. Obviamente isso me influenciou. Não só porque meus primeiros contos imitavam o estilo dele – o que percebi logo, ainda bem -, mas pela descoberta: depois de tantos livros obrigatórios no colégio, pela primeira vez eu tinha contato com um autor brasileiro que se lia com prazer e que tinha histórias fortes para contar.

Paulo Scott:

Tive uma namorada que gostava tanto de Rubem Fonseca que relia seus contos preferidos em voz alta para que eu escutasse e fosse cúmplice de seu deslumbramento. Li vários dos seus livros. Não sei dizer até onde me influenciaram. Sei que, apesar dos anos que não deixam de passar e nos cerca de outros mundos, permaneço fã absoluto do conto “O cobrador”; tenho minhas razões (e acho que faltaria espaço para apresentá-las aqui). No geral e na condição de observador do universo literário, imagino ser impossível que exista jovem autor montando suas fantasias e prospecções mais ambiciosas, talvez de consagração e reconhecimento (quem saberia dizer?), ajeitando os espelhos de seu panteão imaginário, descarte a figura fascinante desse grande autor, esqueça a presença da sua obra, não roque pela fortuna de estar a seu lado.

Xico Sá:

Foi nas mesas dos bares do Beco da Fome, que reunia a boemia literária do Recife no final dos anos 1970, que me caiu nas mãos um maltratado exemplar de “Lucia McCartney”. Digo maltratado mesmo. Tinha até manchas de cerveja e gordura do meu tira-gosto predileto: moela. Comecei a ler logo ali, entre aqueles vagabundos. Nunca mais parei de ler Rubem Fonseca. A sua narrativa foi muito importante para minha trajetória de repórter, inicialmente de polícia, e depois como cronista da vida mundana.

Para ler o que Patrícia Melo, Paula Parisot, Hugo Gonçalves e Reinaldo Moraes disseram, clique aqui.

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