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“Só ao ouvir o tlec da porta percebo como é fácil, e é, sempre, ir embora.
É só sair.”

Aquele velho conselho de não julgar um livro pela capa – ou pelo título – nem sempre deve ter seguido à risca. Explico: assim que vi, entre os lançamentos de maio da Companhia das Letras, o romance de Elvira Vigna (autora até então desconhecida por mim), apostei várias de minhas fichas. Em nota publicada no Estadão, Vinícius Jatobá afirma que Elvira “é a melhor ficcionista brasileira viva que só um reduzido número de leitores ouviu falar”. E, aqui, faço novas apostas, na esperança de que com “O que deu para fazer em matéria de história de amor” a autora possa ter sua prosa reconhecida como uma das mais relevantes no cenário nacional.

A grandeza do romance está intimamente associada à grandeza da narradora; ela, aos olhos daquele leitor acostumado a encontrar fatos ordenados em sequência cronológica ou em graus de importância, desencadeará algum incômodo. Seja este decorrente do constante exercício de re-organizar lembranças nem sempre por ela testemunhadas ou das passagens metaficcionais, nas quais indaga sobre o motivo pelo qual se busca a literatura:

Histórias são recebidas, hoje, sempre com um meio ouvido. Todos meio ouvintes que, mal se iniciam na narrativa, já pensam em outra coisa. Claro, vontade, sim, eles têm, de umas pequenas férias da vida lá deles. Umas pequenas férias de si mesmo, quem não quer? Mas entram (entramos) sem acreditar muito em nada. Tentam (tentamos) uma meia entrada com nossa atenção a meio pau em uma seminarrativa sobre o quê, mesmo? Ah, sim, vidas alheias que talvez sejam as nossas. Fazem isso (fazemos) para tentar recuperar, à distância e sem grandes esforços, a vida. (p. 13)

Voltar-se para o passado a fim de melhor compreender o presente é uma tarefa por vezes automática; relativizar esse passado, no entanto, é uma empreitada para poucos. A narradora, logo no primeiro parágrafo, já sinaliza a possibilidade de traçar uma reta e, almejando atingir o outro extremo, deparar-se com algumas curvas que irão conduzi-la a memórias outras: “Porque é nisso que penso. Nessas histórias que parecem uma coisa e são outra” (p. 11).

A ironia na busca de um sentido, a configuração de Guarujá – tão distante das representações paradisíacas atribuídas às cidades litorâneas -, a tecnologia enquanto instrumento de manutenção social (“De qualquer modo, cento e quarenta caracteres. Fico com frasezinhas do tipo: oi, descobri um cybercafé no deserto. E outras brincadeirinhas esperáveis. Termino dizendo que daqui a pouco estou de volta. O suficiente para que todos achem que continuo a mesma de sempre” p. 137), a vulnerabilidade do amor… Diversos são os aspectos que poderiam ser abordados. Prova de que Elvira Vigna logrou em sua tarefa de criar uma narradora capaz de articular, junto ao muito que deu para fazer em matéria, a forma de um romance contemporâneo que merece perdurar.

O que deu para fazer em história de amor – Elvira Vigna

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 208

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