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Geralmente carrego uma ideia na cabeça durante anos antes de me resolver dar-lhe forma no papel, e na espera, muitas vezes a deixo morrer. A ideia morre de qualquer modo, mesmo quando resolvo começar a escrever: desse momento em diante, existirão apenas as tentativas para realizá-la, as aproximações, a luta com meus meios expressivos. Para começar a escrever alguma coisa, preciso, a cada vez, de um esforço de vontade, porque sei que me esperam a fadiga e a insatisfação de tentar mais e mais, de corrigir, de reescrever.

            A espontaneidade também tem seus momentos: às vezes no começo – e então costumeiramente não dura muito –, às vezes como impulso que se toma ao prosseguir, noutras vezes como voo final. Mas a espontaneidade é um valor? Claro, é um valor para quem escreve, porque permite trabalhar com menos esforço, sem entrar em crise a cada minuto; mas não é certo que a obra sempre ganhe com isso. O importante é a espontaneidade como impressão que a obra transmite, no entanto não é certo que se chegue a esse resultado usando a espontaneidade como meio: em muitos casos, apenas uma elaboração paciente permite chegar à solução mais feliz e aparentemente “espontânea”.

            Todo texto tem uma história individual, um método próprio. Há livros que nascem por exclusão: primeiro se acumula certa massa de material, quero dizer, de páginas escritas; depois se faz uma seleção, percebendo, aos poucos, o que é que pode entrar naquele desenho, naquele projeto, e o que, ao contrário, permanece estranho. O livro Palomar é resultado de muitas fases de trabalho desse tipo, em que “tirar” teve muito mais importância do que “pôr”.

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“Entrevista feita por Maria Corti”, em Eremita em Paris – páginas autobiográficas (Companhia das Letras, 2006), pp. 258-259.

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