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Diário de Berlim ocupada”, da jornalista alemã Ruth Andreas-Friedrich, finalmente ganha uma edição para o português. A publicação fica por conta da Editora Globo, que o incluiu na sua excelente coleção Globo Livros – História, sob tradução de Joubert de Oliveira Brízida. O livro, compilado de relatos – em forma de diário – que se estendem desde 1945 até 1948, foi publicado em Berlim no ano de 1985; em inglês, saiu em 1990 – ambos postumamente, já que Ruth suicidou-se em 1977. Até hoje, este é um sucesso de vendas na Alemanha (junto com o até então inédito por aqui “O homem-sombra”, em tradução livre do alemão, ou “Berlim Underground”, do inglês – em formato “diário”, também, referente aos anos da Segunda Guerra, entre 1938 e 1945).

Sempre é bom introduzir um livro cuja temática essencial é a História com um pouco de história: Andreas-Friedrich, berlinense de 1901, ficou conhecida como combatente da resistência anti-nazista (fundou, junto com Leo Borchard, um grupo de resistência denominado Onkel Emil, que ajudava perseguidos pelo regime a se esconderem e fornecia-lhes documentos falsos). Mas os escritos de Ruth não se limitam ao campo dos feitos históricos: há toda uma base literária que caracteriza suas narrações diárias deste período pós-guerra. O gênero do trabalho de Ruth, que perpassa os âmbitos da história e da escrita “confessional” ou “de memória”, também encontra no “jornalismo literário” uma base para sua definição – a situação é bastante dramática (em várias de suas concepções conceituais) e o leitor a percebe assim a partir de uma obra muito bem produzida.

O cenário traz uma ideia que talvez não nos seja tão clara: geralmente, associaríamos o final de uma guerra como algo desejado e promissor, uma expectativa de bons ventos, de espaço para transformações positivas. Esse não era, no entanto, o perfil de Berlim nos anos aqui colocados: havia outra guerra no pós-guerra, de ordem diferente, mas tão difícil de se enfrentar quanto. A necessidade ainda se perfilava em uma batalha pela sobrevivência nas ruas devastadas da cidade – busca ávida por abrigos temporários nos prédios destruídos, alimentos quaisquer que pudessem ser encontrados dentre os escombros, a vivência num pequeno grupo cooperativo que tinha de lidar, todavia, com outros sobreviventes e soldados (russos) que também transitavam pelos espaços berlinenses. O tratamento mais “humanizado” era para poucos: tudo bastante burocratizado e racionado. Ataques esporádicos ainda se faziam presentes, nos primeiros tempos. O frio intenso era outro problema frequente. A situação, precária, obrigava todo o grupo a buscar estratégias de resistência na falta de coisas básicas, como água e luz, abrigo e carvão para aquecimento e, principalmente, comida.

Com o passar dos anos, o grupo vai também se separando. Berlim busca, paralelamente, sua própria “separação” e divisão formal. De fora, promessas de cidades alemãs em grande transformação e ascensão, pessoas vivendo melhor que em Berlim. Ruth, nossa protagonista, também convive com seus dilemas pessoais: “o que é mais importante? Permanecer fiel a uma cidade ou a uma pessoa?”. Todo esse contexto complexo é que faz de Diário de Berlim ocupada um livro real, que não se atém aos fatos históricos, mas traz muito da dramaticidade humana por trás dos acontecimentos sociais. A recomendação, portanto, não se limita simplesmente aos aficionados por História Mundial, mas aos interessados numa boa literatura “fatual”.

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Diário de Berlim ocupada (1945-1948) – Ruth Andreas-Friedrich
Editora: Globo Livros
Páginas: 298

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