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Confesso não ser um leitor entusiasta de cartas. Confesso, por outro lado, que Otto Lara Resende fez com que eu mudasse, quase que drasticamente, essa opinião. Em O Rio é tão longe (2011), obra que reúne suas correspondências para Fernando Sabino, difícil foi interromper a leitura.

Com uma das edições mais caprichadas da Companhia das Letras, o livro tem uma sóbria apresentação de Humberto Werneck e se divide em quatro partes, cada qual referente ao lugar de onde o autor enviava suas cartas. São elas: Belo Horizonte (1944-1955), Bruxelas (1957-1959), Rio de Janeiro (1964-1965) e Lisboa (1967-1970).

Durante o período em que trabalhou como adido cultural na Embaixada do Brasil em Bruxelas, vemos um Otto Lara Resende constantemente insatisfeito com a sua produção literária, às voltas com um bloqueio criativo que o impedia de escrever; em contrapartida, as correspondências para Sabino são muitas, extensas e detalhadas. Revelam a ambivalência que acompanhou Resende no país e, por vezes, abrigam passagens que poderiam pertencer a uma narrativa literária. Exemplo? “No outubro, as folhas caem. Minha alma já está apenas galharia” (p. 51).

Do ponto de vista da história literária brasileira, a obra se mostra um importante registro de vários nomes da geração. Os encontros e notícias dos principais autores da segunda metade do século XX são constantemente relatados a Sabino – Vinícius de Moraes, Érico Veríssimo, Dalton Trevisan, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Antonio Callado, Rubem Braga, entre outros…

Os conflitos políticos que movimentaram o Brasil, durante a década de 1960, são também sentidos; em uma época na qual as notícias demoravam a chegar e as informações eram imprecisas, o escritor, já na função de adido cultural em Portugal, demonstra estar preocupado com a situação do país, bem como com a de muitos de seus colegas.

Nas quase cem cartas que constituem o volume, o humor tampouco se faz ausente. Entre os causos compartilhados com Sabino – alguns até inspiraram o destinatário em suas crônicas, direta ou indiretamente – e outros vivenciados (a surpresa de Otto, ao buscar na alfândega de Bruxelas uma encomenda para o amigo e se deparar com oito caixas que mal couberam em seu carro), incontáveis são os trechos em que o riso é despertado. Abaixo, reproduzo um divertido diálogo de Lucy Teixeira (L) com um belga (B), que Resende relatou para Fernando, em correspondência datada de 10 de outubro de 1958.

L: – Boa tarde etc.

B: – Queria saber informações sobre o Paraná.

L: – Pois não. Precisamente?

B: – Sobre um chacaré que comprei no Paraná.

L: – Sobre um jacaré?

B: – Sim, senhora. Comprei um jacaré no Paraná e queria saber se foi bom negócio.

L: – Depende. O senhor comprou por quê?

B: – Tenho um belga amigo lá. Ele me disse que era bom negócio.

L: – E o senhor comprou?

B: – Comprei pela fotografia.

L: – Seu amigo lhe mandou a fotografia?

B: – Mandou. A senhora quer ver? Está na minha carteira.

L: – E, muito bem. Com que finalidade o senhor comprou?

B: – Para valorizar. Dizem que tudo lá valoriza, por causa do café. Jacaré não valoriza?

L: – É possível.

= Silêncio, pensamentos estranhos. =

L: – Mas não estou vendo o jacaré aqui, não.

B: – Olhe aí, é isso mesmo.

L: – Só essa paisagenzinha. Há de ver que está atrás da árvore.

B: – O que é que está atrás da árvore, Mademoiselle?

L: – O jacaré.

B: – Não, a árvore é na divisa.

L: – Mas então quede o bicho?

B: – Que bicho?

L: – O jacaré, c’est-à-dire, le crocodile.

B: – Que crocodilo? Então existe crocodilo na minha propriedade?

L: – Pois não foi o senhor que disse que comprou um jacaré?

Em suma: o homem tinha comprado uns lotes, mas dizia “chacará”, ou seja, chácara, mas a Lucy entendeu “jacaré” e corrigiu […] (pp. 87-88)

Por fim, voltando ao livro, durante uma ideia do autor para se referir a algumas cartas (então inéditas) de Mário de Andrade e Cecília Meireles – que foram oferecidas pelo proprietário delas, Arnaldo Saraiva, para possível publicação na editora Sabiá, fundada por Fernando Sabino e Rubem Braga -, Otto Lara Resende acabou por tecer a melhor definição para justificar a leitura de O Rio é tão longe, ainda que não pudesse imaginar que um dia suas correspondências ao amigo de infância seriam reunidas em um volume: “[…] pois cartas se leem com prazer, somos movidos por aquela curiosidade que nos faz meter o olho no buraco da fechadura, na expectativa de algum espetáculo insólito…” (p. 383)

O Rio é tão longe: Cartas a Fernando Sabino – Otto Lara Resende

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 412

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