Tags

No volume 13 (de 1970-71) da Revista de Letras, publicada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (posteriormente, campus da Unesp, após sua criação em 1976), encontramos uma longa entrevista com Vergílio Ferreira, realizada por Leodegário A. de Azevedo Filho. Ela está dividida em duas partes – Aspectos biográficos e Aspectos literários. Na primeira, que poderá ser conferida logo abaixo, o escritor português, sempre muito pertinente no uso da ironia, conta um pouco sobre sua vida e expressa a opinião sobre temas que partem da metafísica e caminham até o cotidiano, além de citar alguns artistas pelos quais sente admiração.

Observação: na transcrição, respeitamos a ortografia vigente na época da publicação.

OUVINDO VERGÍLIO FERREIRA

(Leodegário A. de Azevedo Filho)

Remetemos ao escritor Vergílio Ferreira extenso questionário, em forma de entrevista, publicando hoje a Revista de letras as respostas do ilustre escritor português. Eis as perguntas e as respectivas respostas, na íntegra:

I – Aspectos biográficos:

a. Qual a sua qualificação?

“Chamo-me, de meu nome completo, Vergílio Antônio Ferreira, que não utilizo por inteiro por horror à exibição da unicidade, (porque quanto mais completo é o nome, menos se presta a misturas) não gosto de pseudônimos por desejar assumir a responsabilidade do que sou no mundo civil e no mundo das letras, nasci a 28 de janeiro de 1916 em Melo (Serra da Estrêla) e aí aprendi a sensibilidade que tenho, casei com Regina Kasprzykowski, portuguêsa de ascendência polaca, sou professor sem vocação no Liceu de Camões em Lisboa, tive formação católica como quase tôda a gente, apurei-me mesmo com seis anos de Seminário, mas hoje sou agnóstico.”

b. Qual o seu curriculum vitae?

“Licenciei-me em Filologia Clássica pela Universidade de Coimbra, obtive com Aparição o prêmio “Camilo Castelo Branco” (1960) da Sociedade Portuguêsa de Escritores, que foi extinta por imposição governamental. Era membro dos corpos diretivos à data dessa extinção. E não há nada na minha biografia que seja de biografar.”

c. Mencione particularidades de sua vida: trabalho, distrações, projetos, hábitos, superstições, coleção de objetos, alimentação, esportes, fumo, jôgo, bebida, correspondência, principal defeito, principal qualidade, viagens, grandes emoções, coisas que agradam, coisas que desagradam, alegrias, dificuldades, etc.

“Sou um escritor que se tem ocupado muito do “eu”, com grande escândalo e protesto dos que afetam um interêsse pelo “coletivo”; mas tenho uma grande relutância em falar de mim, ao contrário dos que professam “coletivismo” que passam a vida nisso. Assim me não entendo facilmente com a questão que se me põe. Trabalho, distrações, superstições… O meu trabalho profissional é o de professor de Latim, Grego, Português, com a trituração diária dessa mecânica, exercícios escolares, reuniões. E cumprida essa obrigação social e alimentar, escrevo nas horas vagas. Não tenho distrações favoritas, nem hábitos fora dos que a profissão me impõe, nem superstições – que aliás fazem falta para aliviarmos responsabilidades. Coleciono acidentalmente manuscritos de escritores, mas não insisto porque fica cara. Alimentação? Minha mulher é que sabe. Desporto? Gostei de praticar quando era jovem, mas o meu irmão corpo não estêve de acôrdo. Quanto a fumar, sim, fumo intensamente enquanto escrevo. Fora disso, acabado o esforço, o ritmo abranda. E jogar, só jogos domésticos e quando estava na província, onde o dia tinha muitas horas. Beber, ainda não. Correspondência, já não. Quando estava na província epistolografava tôda a gente. Fiquei bastante cansado. Quanto ao principal defeito e à principal qualidade, não exibir é a grande vaidade e eu não gosto de parecer vaidoso. Viagens faço poucas porque é incômodo. Mas fazem falta para ter que conversar e parecer instruído. Vou ver se remedeio essa vergonha. Há muita coisa que me desagrada e algumas que me agradam. Mas não se podem dizer todas e o melhor é pois não dizer nenhuma. Alegrias? Dificuldades? A maior alegria, que me lembro, é a de estar vivo; e a maior dificuldade também. Há ainda um etc., que não sei a que se refere.”

d. Gosta de escrever de dia ou de noite?

“Eu só posso gostar do que a vida me consente. E é só por isso que gosto de escrever de dia. Escrever de noite obrigar-me-ia a dar as aulas com sono. E eu não quero que o Estado se queixe.”

e. Qual o seu pensamento diante do amor, da vida, da morte e de Deus?

“Agora esta questão é séria. Por amor nós deveríamos entender tôda a relação afetiva que nos une ao mundo, à vida, aos outros. E nesta vasta dimensão, o amor é a essência de tôda a relação humana, na determinação da verdade, do belo, do bem. É isso a que já tenho chamado o “sentimento estético” que uma obra de arte afinal se limita a revelar. Porque o sentimento estético é radicalmente uma relação afetiva; e é na afetividade que a verdade se determina. Mas num domínio mundano, o “amor” é estritamente um problema de relação homem-mulher. E sôbre isso não tenho opinião – ou tenho-a mas não para aqui. Aliás, a dominante dessa relação não é hoje o “amor” mas o “erotismo”, que é uma forma específica da relação amorosa, evidenciada a partir do século XVIII – que é donde parte todo o surto final da crise contemporânea. E sôbre o erotismo algo de extenso tenho escrito para publicar um dia. Quanto à vida, morte, Deus, êles constituem hoje o único problema que resiste a tudo quanto se vai problematizando e resolvendo. Se tanto tenho escrito sôbre isso – já publicado ou não – como resmir-me em duas linhas? Deus é um valor que tende a desaparecer e que para muitos de nós já se desvaneceu. Mas não estamos ainda refeitos da surprêsa. O limite para que tendemos é justamente o da reabsorção dessa surprêsa – dessa falha – num mundo estritamente humano e harmonioso. Não sabemos como possa isso ser. Mas os problemas humanos se resolvem fundamentalmente por si ou seja pelo indizível equilíbrio interno do homem em que irrefutavelmente uma verdade nos “aparece” como verdade e o êrro como êrro. Nenhum argumento decisivo nos veio demonstrar que Deus existe ou não existe. Mas êle existe ainda para alguns e já não existe para muitos.”

f. Quais os poetas, ficcionistas, pintores e músicos de sua preferência?

“Seria bonito dizer que os meus poetas favoritos são Homero, Dante, Goethe, Milton… Decerto que os admiro. Mas os que eu amo são poetas de menor grandeza. Não os vamos citar todos. Indiquemos três e nacionais: Antero, Pessoa, Antônio Nobre. Ficcionistas? Misturemos grandes e menos grandes, nacionais e estrangeiros: Dostoievski, Eça, Malraux, Pintores? Idem: Nuno Gonçalves, Cézanne, Braque. Música? Só um: Bach.”

g. Que acha do circo, do cinema e do teatro?

“Gosto de circo a olhos da infância. De cinema, quando é bom. E de teatro só quando é muito bom. Vou regularmente ao cinema, pouco ao teatro. Já há muito que não vou ao circo e espontâneamente não é fácil que lá volte. A atração do cinema explica-se pela multiplicidade de interêsses que promove, dados os seus recursos, pela novidade desta forma de arte e sobretudo talvez pelo hábito dêle generalizado (qualquer vila e mesmo algumas aldeias dispõem de uma sala de projeções ou a improvisa). O cinema forçou assim o teatro a sublimar-se, um pouco como a fotografia à pintura. Mas uma boa peça de teatro é rara, até pela agravante de dispor por isso mesmo de pouco público. Decerto um filme apenas razoável, pela variedade de recursos do cinema, já se tolera, sendo pois fácil reunir o interêsse do grande público e de um público de escolha.”

h. Que acha do futebol e do carnaval?

“Carnaval? Mas não há carnaval entre nós, além do que se realiza todo o ano. Êsse, porém, só interessa como ponto de referência, para sabermos, em contraste, o que não é carnavalesco. Quanto ao futebol, há que distinguir a degradação de tôda a máquina explorada do espetáculo e o espetáculo em si. Dêste não desgosto, embora a êle assista raramente – praticamente apenas, e mesmo assim de longe em longe quando um dos contendores é o grupo de estudantes de Coimbra ou seja quando joga a minha juventude. Pela mesma razão assisto às vêzes aos espetáculos da Tuna Acadêmica de Coimbra – de que aliás fiz parte – embora a música, produzida por êsse agrupamento não seja decerto de primeira qualidade. Nem talvez de segunda…”

i. Qual a sua posição diante da política?

“Não sou político no sentido ativista do têrmo porque em tal sentido não é político quem quer. Mas estive a ponto de sê-lo por ter acreditado que uma determinada solução política resolveria os essenciais problemas humanos. Hoje penso que êsses problemas escapam a uma concreta orientação política, porque tôdas essas orientações terão de resolver-se numa síntese final que mal descortinamos ainda. Há uma crise política geral, como há uma crise religiosa, artística, filosófica, porque há uma crise mundial. Neste virar de página na história humana a que assistimos, sabemos apenas que de todos os valores há um que inexoravelmente resiste e é o valor do próprio homem, da sua dignidade, da sua plena realização. Assim aceitamos tudo quanto promova essa dignificação: o reajustamento econômico pela socialização, para o que é elementar a intensificação cultural em inteira liberdade, para o que é essencial. Ter-se-á realizado tudo? Decerto que não e assim o mais essencial se não terá atingido. Mas tal essencialidade primeira não está em nossa mão. Porque referindo-se ela a uma plenitude humana em que tudo se harmoniza – a vida e a morte adentro dos nossos estritos limites terrenos – só a própria vida a poderá promover quando e como não sabemos.”

j. Qual a sua filosofia de vida?

“Como exprimir em duas linhas o que venho tentando explicar já não sei em quantos livros? A vida é um valor desconcertante pelo contraste entre o prodígio que é a sua nula significação. Tôda a “filosofia da vida” tem de aspirar à mútua integração dêstes contrários. Com uma transcendência divina, a integração era fácil. Mas mais difícil do que o absurdo em que nos movemos seria justamente essa transcendência. Há várias formas de resolver tal absurdo, sendo a mais fácil precisamente a mais estúpida, que é a de ignorá-lo. Mas se é a vida que ao fim e ao cabo resolve todos os problemas insolúveis – às vêzes, ou normalmente, pelo seu abandono – nós podemos dar uma ajuda. Ora uma ajuda eficaz é enfrentá-lo e resolvê-lo até o gastar… Porque tudo se gasta: a música mais bela ou a dor mais profunda. Que pode ficar-nos para já de um desgaste que promovemos e ainda não operamos? Não vejo que possa ser outra coisa além da aceitação, não em plenitude – que a não há ainda – mas em resignação. Filosofia de velhice, dir-se-á. Com a diferença, porém, de que a velhice quer repouso e nós ainda nos movemos bastante.”

Anúncios