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O escritor portugês José Luís Peixoto acaba de ter o seu mais recente romance, Livro, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Enquanto não escrevemos sobre o título nas “Indicações”, aproveitamos para relembrar a entrevista que Peixoto concedeu ao primeiro número da Revista Macondo.

Macondo: Primeiramente, gostaríamos de agradecê-lo pela disponibilidade em participar desta primeira edição da revista Macondo e pela prontidão em aceitar o nosso convite. Publicado no ano passado em Portugal, seu novo romance Livro chegará ao Brasil, em 2011, pela Companhia das Letras. A partir das críticas veiculadas pela imprensa, a expectativa dos leitores brasileiros é alta. Quais são as suas expectativas em relação ao lançamento de suas obras e à recepção do público em outros países?
José Luis Peixoto: Pessoalmente, dou sempre muito valor à recepção dos meus livros pelos leitores. Valorizo-a e tento sempre que seja o melhor possível. Com esse intuito, disponibilizo-me para entrevistas, conversas, apresentações. Retiro muito prazer dessa vertente do mundo da escrita e, muitas vezes, aprendo com ela. Desde muito cedo que encaro a literatura como uma forma de comunicação, como algo que apenas se cumpre após o olhar do outro. Os textos precisam de alguém que se acrescente a eles, que lhes dê um corpo de experiências e de significados. A minha vontade de encontrar leitores para o que escrevo nasce do respeito que sinto pelos textos que escrevi e que publiquei. Ainda assim, tento não ter expectativas em relação à recepção desses textos. As expectativas colocam o objeto que é alvo desse sentimento numa posição injusta.

M: Você é licenciado em Literatura e Línguas Modernas. No tempo em que cursou a graduação, pesquisas acerca das mais variadas obras faziam parte da realidade acadêmica na qual você estava inserido. Agora os papéis se inverteram e as suas produções passaram a ser objetos de estudo. Como você reage ao se deparar com textos constitutivos da sua fortuna crítica? Você já leu alguma pesquisa sobre suas obras com interpretações e pontos de vista diferentes dos seus, ao concebê-las?
JLP: Eu não sou dono das interpretações que podem ser feitas daquilo que escrevi. Desse modo, sinto-me muito honrado de cada vez que alguém decide estudar aquilo que escrevi. Aprendo com todas essas leituras. Quando são encontradas marcas no texto que transcendem a minha intenção, fico feliz. Através desses olhares, fico a saber mais sobre o texto. Uma vez que não pode ser apontado aquilo que não está lá. O texto é um objeto fixo, mas que pode ser olhado de múltiplas perspectivas. Eu sou humano, imperfeito, e não esgotei todas essas possibilidades. Essa é a riqueza da literatura.

M: Quando você pensa em literatura brasileira: quais autores ou obras vêm à sua cabeça?
JLP: A resposta mais sincera é a mais vaga: são muitos os nomes que me chegam à cabeça quando penso em literatura brasileira. O Brasil, assim como a sua literatura, é muito vasto e diverso. Quanto mais conheço, mas percebo o tanto que me falta conhecer. Ainda assim, não gosto de respostas que não tentem responder à pergunta e, por isso, diria que os nomes que passam com mais frequência pela minha cabeça quando penso em literatura brasileira são João Guimarães Rosa e Clarice Lispector.

M: Ao longo desses anos, sua produção artística perpassou os mais diversos gêneros: contos, poemas, romances, crônicas e peças de teatro. Há algum tipo de trabalho pelo qual ainda não tenha transitado, mas sente vontade de fazê-lo?
JLP: Sinto sempre vontade de ser surpreendido e sinto sempre vontade de trabalhar com outras pessoas. Como tal, gosto muito que me façam propostas. A minha experiência diz-me que quanto mais essas propostas se afastam do meu mundo imediato, mais eu aprendo com elas. Ultimamente, tem sido muito gratificante para mim, por exemplo, escrever letras de canções.

M: Em obras de Vergílio Ferreira (Alegria breve), Antônio Lobo Antunes (As naus), Inês Pedrosa (A eternidade e o desejo) e José Saramago (Ensaio sobre a cegueira), há a presença de alguns personagens cegos. O mesmo ocorre em Nenhum olhar. Embora cada obra tenha as suas peculiaridades e razões de ser, você percebe uma relação entre a constante abordagem da visão, na literatura portuguesa, e a história de Portugal?
JLP: Não tenho uma resposta definitiva para essa questão. Aquilo que sinto é que a cegueira é um símbolo poderoso e, tristemente, muito atual.

M: Certa vez, Gabriel García Márquez disse não ler os seus próprios livros – após estes serem lançados – por ter medo. Qual a sua relação com as obras que já publicou?
JLP: Tenho uma ótima relação com as obras que publiquei. Todas elas partiram de uma decisão muito ponderada. Ainda assim, essa decisão aconteceu num período específico da minha vida e, claro, com a passagem do tempo a minha forma de ver o mundo, os meus critérios vão-se alterando. Essa é uma lei da vida e do tempo, não me incomoda. Sinto-me em paz com aquilo que fui. Em muitos aspetos, continuo a sê-lo e continuo a defende-lo. Quando não é esse o caso, sei que o fui e que, nessa época, não tinha possibilidade de saber mais. Assim, acontece-me reler aquilo que publiquei há anos. Ao fazê-lo, surpreendo-me quase sempre positivamente.

M: Sentimo-nos muito honrados com a oportunidade de entrevistá-lo e de aproximar um pouco mais os leitores brasileiros da sua, embora recente, significativa produção literária. Certamente sua obra não só mantém a tradição da boa qualidade das letras de Portugal ao longo da história como também enriquece a literatura em língua portuguesa, na sua totalidade. Para encerrar, gostaríamos que você deixasse uma mensagem para os novos (e velhos, por que não?) escritores.
JLP: A mensagem é uma única e serve para todas as idades: acreditem, não parem de acreditar. O entusiasmo de imaginar um futuro melhor e de tentar construí-lo a partir daqui, do presente, vale o esforço intelectual e físico de superar as vozes do desânimo.

*Ao final das perguntas, como é de costume na seção “Entrevista”, pedimos para que José Luís Peixoto listasse três livros que, de alguma forma, foram importantes para a sua vida. São eles:

  • Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa
  • Memorial do Convento – José Saramago
  • Livro do Desassossego – Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

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