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Quem é:

Nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. É formado em Economia pela PUC. Dentre seus livros publicados, estão: Prato feito (1974), Segunda classe (com Antonio Carlos de Brito, “Cacaso”, 1975), Último tapa (1971), Pelas barbas do profeta (1984), Tupis, rubis & abacaxis (1987), ócio do oficio (1993), Papéis de viagem (1993). Assim o apresenta Antônio Miranda: “é conhecido por sua atuação no período da nossa poesia marginal e da Nuvem Cigana, aparecendo em antologias que lançaram aquela moçada anárquica mas, a seu modo, contestadora da ditadura militar. Autor de uma obra considerável, vale mencionar o seu “Livro do príncipe” em que esbanja criatividade e uma erudição enviesada… Inventa  textos e declarações bem engendradas para  figuras da cultura universal como Lao Tsé, Santo Agostinho, Julio Cortazar, General Mac Arthur, Rousseau, Proudhon,  Jorge Luis Borges e até Marilyn Monroe, seja parodiando seja parafraseando, para dar sustentação a um príncipe que vai do sério ao grotesco, do verossímel ao absurdo, do apócrifo ao suposto… Divertido, cruel, vai da farsa ao paroxismo,  Vale a pena conferir. É divertido, é instigante, e até pedagógico… Dá receitas extravagantes e despistadoras,  cria aforismos desconcertantes….  sem evitar o besteirol. Quem quiser, que leve a sério.” (Fontes, aqui e aqui).

Poemas:

(Os poemas abaixo foram retirados do livro “26 poetas hoje”, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda no ano de 1975).

RELICÁRIO 74

ah vida ingrata
chovem gatos sapatos lagos
há dias
impedem minha ida à praia
remate de males
o verão desaba lerdo
dezembro natal frio como teus lábios
foi-se a namorada
fugiu com um polonês de butique
pra Petrópolis
é vislumbrar a felicidade e
levar a porrada
longo caminho da testa à terra
semana passada atolei no inferno
solidão me esganou
sem mais cartilagem todo morto
telefono pra mamãe combinamos
esquiar na Europa até março
ir a muitas boates
esquecer-te pelo menos lá tenho
Dominique Sanda que me ama

CEGUEIRA

desgarrado rasgo
com meu pistom
a névoa

***
tenho vontade de ver
as coisas como realmente são
mas só consigo ver
através de meus olhos

SOL
ouvindo
o movimento dos barcos
ondas surdas
garrafas tarrafas
explodindo
à margem
nasce

VALOR
a vinda
valeu a pena
noite janta
a carne viva
dia abre
a boca do tigre
ao longo da cama
gente que joga
e amansa
antes de conhecer a dança
a vinda valeu
a pena

RETRATO
à noite chapadões sombreados
penteiam o esqueleto das margens
o vapor resfolegante expelindo
vagalumes carbonizados
quantas estrelas tanta água
penso no meu amor lendo Drummond
com lentes de contato
nervosa e linda sublinhando adjetivos
treva ambulante
a paisagem se descasca
as mesmas estrelas
as águas que passam
meu radar está quebrado
esqueci a mentira
aclarou-se o mormaço
a noite veste cabelos louros
recém-cortados

MEU AMOR DE SOSLAIO
Faz tanto calor no Rio de janeiro
que é bom sentir essa neve
partir de seu olhar

SEQÜÊNCIAS
nos encontramos no elevador
depois nos beijamos
descobrimos então que não nos conhecíamos
que éramos do mesmo sexo que
não podíamos nos beijar na boca
não dormi nada essa noite
é dia tenho um almoço curto
demais o verão com seu sovaco peludo
cheirando a ovo
um mistério

LÚCIFER
um dia todos os peixes
puseram a cabeça para fora da lagoa
e me olharam

DESCONSTRUÇÃO
nas paredes da casa resistem
fotofrangalhos de tempo
a memória se estafa no living
o futuro espera no hall
as janelas todas cerradas
encobrindo as vozes do sol
à procura de um silêncio escuto
enquanto meu olhar foge
pela porta dos fundos

CRIAÇÃO

penso antes do grito
um abraço de locomotivas
o trem
chacoalhando os líquidos
e os óvulos e ovos e
outras químicas
primeiro era só submersão
e uma fome submarina
um dia o espaço faltou
e a bolsa estourou
a vida

FUG 42
Tude a paranóia os assaxinatos têm me persg
Timamente não sei razão não devo deixar pis
Ercito principmente a insegurança a total fal
Tias polítiquis mínimis no mais nu sem sol
Emos partir viver no exilis

POEMA D’ALBA
virou dia
e o grilo
virou passarinho
tentou dormir
pra não ficar sozinho

ÚLTIMOS SONS DA TARDE
o bairro que vejo em frente é silvestre
a blusa que ela veste organza
os sinos que oiço são de cosme velho
nas axilas del corcovado seu cheiro sexy
a tarde estremece mostrando feridas
desbravaram a mata me tomaram ela
só as andorinhas se equilibram
o sol escapuliu de fininho
trovões batem bastões de entrada
nostálgica a noite assovia
e cumprimenta os ausentes

PROPRIEDADE PRIVADA
não tenho nada comigo
só o medo
e medo não é coisa que se diga

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