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O novo livro de Paul Auster traz consigo algumas curiosidades: além de não ser um romance, e sim uma “compilação” de fragmentos autobiográficos, ele primeiro foi editado em formato digital e publicado online, pela Anagrama – disponibilizado desde 19 de janeiro; somente em fevereiro os leitores poderão ter acesso ao livro “clássico”, de papel. A exclusividade não fica só por conta do formato de publicação: “Winter Journal” sai primeiro como “Diario de Invierno”, em espanhol, e ainda é inédito nos Estados Unidos.

Abaixo, disponibilizamos alguns trechos da entrevista com Paul Auster (concedida para Alex Vicente), sobre “Diário de Inverno”, em livre tradução, e falamos um pouco mais sobre o último livro do autor.

O norte-americano Paul Auster, aos 65 anos de idade, apostou na disponibilização online de seu último trabalho. São recordações de muitas das suas experiências vividas – um verdadeiro diário – que vem à tona junto com a confissão de que, cada vez mais, sente aproximar-se de si a velhice e a morte: “adentrei o inverno da minha vida. Me aproximo do final“. Segundo Auster, “Diário de inverno” traz alguns fragmentos autobiográficos e episódios de sua vida, mas não pretende retratar com precisão toda a sua existência. “É um livro sobre o meu corpo, sobre os prazeres e as dores que alguém sente vivendo dentro dele. Se falo de minha mulher, é porque meu corpo dorme junto ao seu todas as noites. Se me expresso sobre minha mãe, é porque foi ela quem deu à luz ao meu corpo. Se descrevo as casas onde vivi, é só porque abrigaram meu corpo“.

Dentre os relatos, Auster recorda também os ataques de pânico que sofreu durante a vida; foi graças ao primeiro deles (há dez anos, na cozinha de sua casa), inclusive, que pensou em escrever algo assim. Segundo o autor, havia se dado conta de que essa experiência violenta e aterradora que chega “sem prévio aviso” fazia parte de uma história maior que lhe interessaria investigar.

Apesar dessas considerações, Auster diz não ter procurado ajuda profissional e, muito menos, encontrar na escrita das suas memórias uma espécie de “terapia”:

Escrever nunca me serviu para resolver nada. A escrita não é nenhuma terapia. Se muito, é uma compulsão ou uma doença. Nunca entendi por que alguém gostaria de se dedicar a isso, a não ser que tenha a sensação de que lhe é algo absolutamente necessáio. A única coisa que posso dizer sobre o meu trabalho é que, durante as últimas três décadas e meia, dei tudo o que tinha. Tenho feito o melhor que podia, a cada dia de minha vida. Mesmo quando tudo o que escrevo durante um dia termine na lata de lixo, posso me levantar do escritório e dizer a mim mesmo: “Pelo menos, você não se enganou”. Mas se trata de uma profissão estranha. Sentar-se num quarto e passar todo o dia sozinha não é algo que a maioria das pessoas querer fazer com sua vida. As pessoas querem estar lá fora, com os outros, fazendo coisas juntas.

O entrevistador destaca, ainda, a exposição da intimidade de Auster – com uma valentia “incomum” para um escritor de seu calibre – e a impressão de que o autor aparenta estar, permanentemente, torturado pelos erros de seu passado.

Me atormentam os momentos em que não fui capaz de agir conforme esperava de mim mesmo. Esses erros de comportamento e de julgamento seguem me atormentando. Me fazem pensar que não sou o grande homem que sempre acreditei ser. (…) Não queremos todos sermos heróis em nossas vidas? (…). Sempre tentei viver minha vida de modo que pudesse merecer meu próprio respeito. E, em certas ocasiões, falhei. Não estou dizendo que se possa ir por aí, sem cometer um erro, sem fracassar nenhuma vez. Mas esses são meus erros e seguem me torturando.

(Tradução livre)

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