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A vida não vale mais que duas lágrimas.” (J. S.)

No último semestre de 2011, os leitores de Saramago foram surpreendidos pela notícia de que seu primeiro romance, mantido inédito por desejo do próprio autor, seria publicado. Em meio à expectativa, tão logo promovido o lançamento da obra, deu-se início o turbilhão de críticas que, não reconhecendo em Claraboia o estilo consolidado dos trabalhos que conferiram notoriedade a Saramago, preferiram renegá-lo.

Posso ter feito uma leitura ingênua ou, justamente por não ter me deixado afetar pela referida expectativa, caminho na contra-mão. Defendo a leitura da obra e, ademais, exalto suas qualidades. O mosaico construído pelo narrador, que se constitui a partir da rotina dos moradores de um simplório prédio de Lisboa, no início dos anos 1950, já permite que vislumbremos muitas das ideias que José Saramago retomaria em textos futuros. Talvez os diálogos travados entre Abel e Silvestre – embora até certo ponto suscitem questões pertinentes – adquiram, no desfecho, um grau de abstração acima do convencional. Nada que, entretanto, seja o suficiente para comprometer o panorama de costumes construído no decorrer da narrativa.

Da perspectiva formal, na qual parece residir a maior frustração dos leitores, o estilo pouco remete ao Saramago dos períodos sem pressa para terminar e das pontuações subvertidas. Há que se recordar, todavia, o fato de estarmos diante de uma de suas primeiras criações – assinada originalmente sob o pseudônimo “Honorato”. A opção por uma estrutura simples, menos do que comprometer a qualidade da obra, facilita a divisão dos capítulos que, por sua vez, obedece ao movimento de idas e vindas entre as moradias do prédio.

Certamente, torna-se pouco aconselhável a comparação de Claraboia com os textos que o autor produziu nas décadas seguintes. Não apenas por uma questão de técnica, como também das vivências que tanto lhe acrescentaram na abordagem dos temas recorrentes em sua produção. O olhar que recai sobre os valores e as motivações que moldam os personagem desse primeiro romance, porém, contribui ainda mais à história (da literatura) portuguesa.

Claraboia – José Saramago

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 389

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