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– João Ubaldo Ribeiro – O Estado de S.Paulo

Com mais de 50 anos de escrevinhação nas costas, descobri algumas ideias que muita gente faz da vida de um escritor. Por exemplo, tem quem ache que os escritores, notadamente entre eles mesmos, só falam difícil, uma proparoxítona para abrir, uma mesóclise para dar classe e um tetrassílabo para arrematar. “Em teu parecer, meu impertérrito amigo”, perguntaria eu ao Rubem Fonseca, durante nosso almoço periódico, “abater-se-á hoje, sobre a nossa urbe, uma formidanda intempérie?” Ao que o Zé Rubem reagiria com uma anástrofe, um mais-que-perfeito fazendo às vezes do imperfeito do subjuntivo e uma aliteração final show de bola, coisa de craque mesmo. “Augure do tempo fora eu, pressagiá-lo-ia libentissimamente”, responderia ele. “Todavia, de tal não me trato.” E assim iríamos almoço afora, discutindo elevadíssimos assuntos, em linguagem só compreensível por indivíduos especiais.

Além de falar difícil, os escritores são ricos. Todo mundo acha que o escritor com quem se defronta é o mesmo que, segundo os jornais, lançou oito best-sellers em sucessão nos Estados Unidos e os vendeu por todos os dólares disponíveis em Hollywood, além de ter dormido com nove em cada dez estrelas de cinema. Muitos não acreditam que o escritor, quando ganha com o que faz, leva entre 5 e 12% do preço do livro na livraria. Na verdade, a imensa maioria dos escritores tem que se virar em outras atividades, como a de professor ou de jornalista, nos intervalos das quais, desassistido e muitas vezes com fama de maluco, teima em ceder a uma vocação imperiosa ou ao que lá o impila a escrever.

E acredita-se muito nas matérias que, de tempos em tempos, ressurgem com uma regularidade que as faz parecer sazonais, a respeito do boom experimentado por nossa literatura no exterior. Com exceção de alguns dias como objeto de uma feira importante, nunca houve boom nenhum. As editoras, livrarias e feiras, de modo geral, criaram uma categoria literária e lá socam brasileiros, peruanos, chilenos, cubanos, argentinos e toda a malta latina. Saem daí noções estapafúrdias, como “cultura latino-americana”. Já contei aqui como fui recebido, uma vez, na Áustria, por uma “noite de cultura sul-americana”, que passei ouvindo índios andinos tocando aquelas flautas deles. O ensino de língua e literatura de língua e literatura em português é frequentemente enfiado em departamentos de espanhol e português, de verbas curtas, equipes minúsculas e prestígio mínimo.

Os brasileiros portam a carga adicional da Amazônia. Na Alemanha, falando em público, eu notava que algumas pessoas acreditavam que praticamente todo o Brasil era a Amazônia e achavam que, assim ou assado, poucos brasileiros viviam longe dela. Não é incomum que nos tomem satisfações pessoais pela situação da Amazônia como descrita pela imprensa local. E os índios são também obrigatórios. Se o palestrante brasileiro ousar afirmar que nunca viu um índio, como aconteceu comigo (eu só tinha visto o Juruna, comendo frango de paletó e gravata, na casa de Darcy Ribeiro), pode ser tido na conta de mentiroso cínico.

O brasileiro que se meter a discutir problemas literários, digamos, universais não obterá a atenção de ninguém. Se aparecer um filósofo brasileiro, vão achar que é uma aberração. E isso acontece também em outras áreas. Balé brasileiro tem que basear-se em danças de origem africana ou indígena, com música percussiva e, se possível, gente pelada no palco. Para balé moderno brasileiro, torcem o nariz, assim como para qualquer manifestação de áreas vistas como ilegítimas para nós. E, sim, respondemos sempre a perguntas sobre identidade nacional – eles lá mudando de país e povo na mera travessia de uma rua e nós aqui, com bem mais território que a Europa ocidental e tudo quanto é tipo de gente misturada, falando a mesma língua e se considerando o mesmo povo. Muitos não se conformam, saem resmungando das palestras e elaboram teorias complexas, mostrando cisões de todos os tipos no povo brasileiro, as quais não percebemos nem quando muito explicadas por eles.

Os escritores africanos partilham conosco certos problemas. Talvez ainda em maior escala do que nós, são rotulados simplesmente de “literatura africana”. Tenho vários amigos em vários países africanos, que não aguentam mais serem escritores africanos, metidos no mesmo barco que todos os originários de nações negras. A identidade de uma nação como essas não é vista por sua história, sua língua, sua religião, seus costumes, sua cultura, enfim, mas, sim, através da estéril, pobre e equivocada ótica racial – são todos negros, logo são iguais, onde haver mais igualdade do que nisso?

Se a minha cultura, no episódio da Áustria, foram os índios andinos, bem mais complicadas serão as homenagens à “cultura” africana. Não canso de apontar a completa falta de sentido dessa expressão, pois um continente como a África, que deve dar umas três Américas do Sul, só tem uma cultura? Está na hora de até nós mesmos, brasileiros, negros ou não, pararmos com essa história de “africana” (não convide para a mesma mesa um zulu e um masai), “música africana” e não sei o que mais lá africano, assim fomentando a visão equivocada e colonialista de uma África homogeneizada pela cor da pele e não partilhada por povos que além dela pouco mais têm em comum.

Comecei a escrever tudo isso por causa da Flip, que vem aí, no fim de semana. Fui escrevendo, fui escrevendo e, quando dei por mim, já tinha acabado o espaço. Eu vou aparecer por lá e sei que vai ser bom. Foi somente por precaução que pedi que não fizessem homenagem à minha cultura e dispensassem algum trio elétrico porventura contratado.

(Publicado, originalmente, no jornal O Estado de São Paulo, em 03 de julho de 2011; fonte).

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