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Quem é:

Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires no dia 24 de agosto de 1899. Por influência da avó inglesa, foi alfabetizado em inglês e em espanhol. Em 1914 viajou com sua família para a Europa e se instalou em Genebra, onde cursou o ensino médio. Em 1919 mudou-se para a Espanha e aí entrou em contato com o movimento ultraísta. Em 1921 regressou a Buenos Aires e fundou com outros importantes escritores a revista Proa. Em 1923 publicou seu primeiro livro de poemas, Fervor de Buenos Aires. Desde essa época, adoece dos olhos, sofre sucessivas operações de cataratas e perde quase por completo a vista em 1955. Tempos depois se referiria à sua cegueira como “um lento crepúsculo que já dura mais de meio século”. Desde seu primeiro livro até a publicação de suas Obras Completas (1974) transcorreram cinqüenta anos de criação literária durante o qual Borges superou sua enfermidade escrevendo ou ditando livros de poemas, contos e ensaios, admirados hoje no mundo inteiro (Fonte). Aqui, selecionamos os 17 haicais (17, em homenagem ao número de sílabas características do poemeto) que, certa vez, Borges publicou.

 

Os haicas de J. L. Borges:

(tradução: Amálio Pinheiro)

1

Algo me disseram
a tarde mais a montanha.
Mas isso já era.
2

A extensa noite
não é agora outra coisa:
alguma fragrância.
3

Mas é ou não é
o sonho que eu esquenci
quase manhãzinha?
4

Calam-se bordões
A música já sabia
o que estou sentindo.
5

Hoje não me alegram
no horto as amendoeiras:
elas te relembram.
6

Obscuramente
livros, lâminas, chaveiros
seguem minha sorte.
7

Desde aquele dia
não movimentei as peças
no meu tabuleiro.
8

Em qualquer deserto
acontece a alvorada.
Alguém está sabendo.
9

A ociosa espada
sonha com suas batalhas.
O meo sonho é outro.
10

O homem está bem morto.
A barba não sabe nada.
Vão crescendo as unhas.
11

Esta aquela mão
que certa vez encostava
em tua cabeleira.
12

Sob o beiral
o espelho nada copia
que não seja a lua.
13

Com a lua em cima
a sombra que se alonga
é somente uma.
14

Era um império
aquela luz que se apaga
ou um vaga-lume?
15

Una lua nova.
Ela também vai olhando-a
de uma outra porta.
16

Um trino longínquo.
O rouxinol te consola
e nem imagina.
17

Mão velha de guerra
segue traçando seus versos
para o esquecimento.

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