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O que?


Para o Domingo-Poesia de hoje, pensamos em trazer não um, mas vários poetas. Nesta semana, mais importante do que os temas e/ou peculiaridades que permeiam a produção de determinado(a) autor(a), selecionamos os poemas pela sua forma. Se cada semana da seção representasse um verso, hoje poderíamos ter a finalização de um soneto. 14 versos, 1 soneto. 14 sonetos, um Domingo-Poesia!

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Quatorze Versos (Alexandre O’Neill)

 

O primeiro é assim: fica de parte.

No segundo já posso prometer

que no terceiro vai haver mais arte.

Mas afinal não houve… Que fazer?

 

Melhor será calar, pois que dizer

nem do sexto conseguirei destarte.

Os acentos errados é favor não ver;

nem os versos errados, que também sei hacer…

 

Ó nono verso porque vais embora

sem que eu te sublime neste décimo?

Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.

 

Errei-o. Mas que importa se a poesia,

mesmo que o não errasse, já não vinha?

É este o último e, como os outros, péssimo…

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Soneto da fidelidade (Vinícius de Moraes)

 

De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

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Soneto (Luís de Camões)

 

 

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,

ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,

Sem falta lhe terá bem merecido

Que lhe seja cruel ou rigoroso.

 

Amor é brando, é doce e é piedoso;

Quem o contrário diz não seja crido:

Seja por cego e apaixonado tido,

E aos homens e inda aos deuses odioso.

 

Se males faz Amor, em mi se vêem;

Em mim mostrando todo o seu rigor,

Ao mundo quis mostrar quanto podia.

 

Mas todas suas iras são de amor;

Todos estes seus males são um bem,

Que eu por todo outro bem não trocaria.

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Os versos que te fiz (Florbela Espanca)

 

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem pra te dizer !

São talhados em mármore de Paros

Cinzelados por mim pra te oferecer.

 

Têm dolência de veludos caros,

São como sedas pálidas a arder …

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer !

 

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda …

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz !

 

Amo-te tanto ! E nunca te beijei …

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!

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Oficina irritada (Carlos Drummond de Andrade)

 

Eu quero compor um soneto duro

como poeta algum ousara escrever.

Eu quero pintar um soneto escuro,

seco, abafado, difícil de ler.

 

Quero que meu soneto, no futuro,

não desperte em ninguém nenhum prazer.

E que, no seu maligno ar imaturo,

ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

 

Esse meu verbo antipático e impuro

há de pungir, há de fazer sofrer,

tendão de Vênus sob o pedicuro.

 

Ninguém o lembrará: tiro no muro,

cão mijando no caos, enquanto Arcturo,

claro enigma, se deixa surpreender.

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A Camões (Manuel Bandeira)

 

Quando n’alma pesar de tua raça

A névoa da apagada e vil trizteza,

Busque ela sempre a glória que não passa,

Em teu poema de heroísmo e de beleza.

 

Gênio purificado na desgraça,

Tu resumiste em ti toda a grandeza:

Poeta e soldado… Em ti brilhou sem jaça

O amor da grande pátria portuguesa.

 

E enquanto o fero canto ecoar na mente

Da estirpe que em perigos sublimados

Plantou a cruz em cada continente,

 

Não morrerá, sem poetas nem soldados,

A língua em que cantaste rudemente

As armas e os barões assinalados.

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Heroísmos (Cesário Verde)

 

Eu temo muito o mar, o mar enorme,

Solene, enraivecido, turbulento,

Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;

O mar sublime, o mar que nunca dorme.

 

Eu temo o largo mar rebelde, informe,

De vítimas famélico, sedento,

E creio ouvir em cada seu lamento

Os ruídos dum túmulo disforme.

 

Contudo, num barquinho transparente,

No seu dorso feroz vou blasonar,

Tufada a vela e n’água quase assente,

 

E ouvindo muito ao perto o seu bramar,

Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,

Escarro, com desdém, no grande mar!

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Génesis (Jorge de Sena)

 

De mim não falo mais: não quero nada.

De Deus não falo: não tem outro abrigo.

Não falarei também do mundo antigo,

pois nasce e morre em cada madrugada.

 

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,

para sentir o tempo andar comigo;

nem de viver, que é liberdade errada,

e foge todo o Amor quando o persigo.

 

Por mais justiça … -Ai quantos que eram novos

em vão a esperaram porque nunca a viram!

E a eternidade… Ó transfusâo dos povos!

 

Não há verdade: O mundo não a esconde.

Tudo se vê: só se não sabe aonde.

Mortais ou imortais, todos mentiram.

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Último soneto/Soneto de amor (Mário de Sá-Carneiro)

 

Que rosas fugitivas foste alí:

Requeriam-te os tapetes – e vieste…

– Se me dói hoje o bem que me fizeste,

É justo, porque muito te devi.

 

Em que seda de afagos me envolvi

Quando entraste, nas tardes que apar’ceste –

Como fui de percal quando me deste

Tua boca a beijar, que remordi…

 

Pensei que fosse o meu o teu cansaço –

Que seria entre nós um longo abraço

O tédio que, tão esbelta, te curvava…

 

E fugiste… Que importa? Se deixaste

A lembrança violeta que animaste,

Onde a minha saudade a Cor se trava?…

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Soneto à maneira de Camões (Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

Esperança e desespero de alimento

Me servem neste dia em que te espero

E já não sei se quero ou se não quero

Tão longe de razões é meu tormento.

 

Mas como usar amor de entendimento?

Daquilo que te peço desespero

Ainda que m’o dês – pois o que eu quero

Ninguém o dá se não por um momento.

 

Mas como és belo, amor, de não durares,

De ser tão breve e fundo o teu engano,

E de eu te possuir sem tu te dares.

 

Amor perfeito dado a um ser humano:

Também morre o florir de mil pomares

E se quebram as ondas do oceano.

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Em nós a pressa mora (Rainer Maria Rilke)

 

Em nós a pressa mora.

Mas do tempo ao passar

tal bagatela ignora,

entre o que tem vagar!

 

Tudo que corre agora

em breve há de acabar:

só o que custa a demora

nos pode consagrar.

 

Jovem, procura e ousa

– não a velocidade,

o voo tentador…

 

não, pois tudo repousa

no Eterno: claridade

e sombra, livro e flor.

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Amo o pedaço de terra que tu és (Pablo Neruda)

 

Amo o pedaço de terra que tu és,

porque das campinas planetárias

outra estrela não tenho. Tu repetes

a multiplicação do universo.

 

Teus amplos olhos são a luz que tenho

as constelações derrotadas,

tua pele palpita como os caminhos

que percorre na chuva o meteoro.

 

De tanta lua foram para mim teus quadris,

de todo o sol tua boca profunda e sua delícia,

de tanta luz ardente como mel na sombra

 

teu coração queimado por longos raios rubros,

e assim percorro o fogo de tua forma beijando-te,

pequena e planetária, pomba e geografia.

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Sonhei que me esperavas (Olavo Bilac)

 

Sonhei que me esperavas. E, sonhando,

Saí, ansioso por te ver: corria…

E tudo, ao ver-me tão depressa andando,

Soube logo o lugar para onde ia.

 

E tudo me falou, tudo! Escutando

Meus passos, através da ramaria,

Dos despertados pássaros o bando:

“Vai mais depressa! Parabéns” dizia.

 

Disse o luar: “Espera! que eu te sigo:

Quero também beijar as faces dela!”

E disse o aroma: “Vai, que eu vou contigo!”

 

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:

“Como és feliz! como és feliz, amigo,

Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!”

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Eu nada entendo (Mário Quintana)

 

Eu nada entendo da questão social.

Eu faço parte dela, simplesmente…

E sei apenas do meu próprio mal,

Que não é bem o mal de toda a gente,

 

Nem é deste Planeta… Por sinal

Que o mundo se lhe mostra indiferente!

E o meu Anjo da Guarda, ele somente,

É quem lê os meus versos afinal…

 

E enquanto o mundo em torno se esbarronda,

Vivo regendo estranhas contradanças

No meu vago País de Trebizonda…

 

Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,

É lá que eu canto, numa eterna ronda,

Nossos comuns desejos e esperanças!…

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Para encerrar, trazemos abaixo um curto post, tal como fora encontrado – retirado daqui -, que muito acrescenta ao propósito de hoje:

Sem saber quem terá sido o autor (Bocage, porventura), li, algures, que tendo um amigo perguntado a um vate, como é que se fazia um soneto, se desenvolveu o seguinte diálogo poético entre os dois:
-“Comece em linhas iguais
Na medida e na cadência,
Pondo rimas nos finais.”
-“E no meio, que lhes ponho?”
-“Nisso está o valimento.
No meio, meu caro amigo,
É preciso pôr…talento!…”
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