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[Retirado do Blog da Cosac Naify, aqui]

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(Por Benjamin Moser)

Autor de Clarice, , biografia de Clarice Lispector publicada pela Cosac Naify. O escritor e tradutor norte-americano foi um dos convidados da FLIP 2010.

Durante o recente colóquio internacional sobre Clarice Lispector na Universidade de Paris, fiquei sabendo que sua produção poética era desconhecida até da maioria dos especialistas. Sua falsa produção poética, todos conhecemos: são os poeminhas sentimentais que circulam na internet e que são, como as infinitas “citações” de Clarice no Twitter, de duvidoso procedimento.

Eu, pessoalmente, adoro isso. Demostra que Clarice, como os grandes artistas, já começou a gerar uma obra lendária na sombra da obra real: afinal, todo artista também é o seu mito. Com essa falsa produção, a escritora se junta a artistas como Leonardo da Vinci: o que é que ele pensaria do seu Código?

Enquanto pesquisava e escrevia minha biografia de Clarice, costumava dizer que poderia criar outra biografia só com as mentiras, lendas e equívocos que ouvia todos os dias. Uma delas era a de que Clarice nunca fez poesia, embora houvesse pistas desmentindo isso. Mas onde ficara essa suposta poesia, ninguém sabia. Apenas um poema tinha sido descoberto e publicado pela grande pesquisadora canadense Claire Varin. Durante a minha pesquisa, encontrei, no Museu da Literatura Brasileira da Casa de Rui Barbosa, outro poema.

Ainda há muita coisa a se descobrir sobre Clarice Lispector: por isso também que o meu livro se chama Clarice-vírgula e não Clarice-ponto final. A existência desta obra poética é prova de que, para o pesquisador disposto a mergulhar nos arquivos, nas revistas, nos jornais e na imprensa feminina da época, há grandes descobrimentos a serem feitos.

Aqui estão os dois poemas conhecidos.

A mágoa,

Os telhados sujos a sobrevoar
Arrastas no vôo a asa partida
Acima da igreja as ondas do sino
Te rejeitam ofegante na areia
O abraço não podes mais suportar
Amor estreita asa doente
Sais gritando pelos ares em horror
Sangue escoa pelos chaminés.
Foge foge para o espanto da solidão
Pousa na rocha
Estende o ser ferido que em teu corpo se aninhou,
Tua asa mais inocente foi atingida
Mas a Cidade te fascina.
Insiste lúgubre em brancura
Carregando o que se tornou mais precioso.
Voas sobre os tetos em ronda de urubu
Asa pesa pálida na noite descida
Em pálido pavor
Sobrevoas persistente a Cidade Fortificada escurecida
Capela ponte cemitério loja fechada
Parque morto floresta adormecida,
Folha de jornal voa em rua esquecida.
Que silêncio na torre quadrada.
Espreitas a fortaleza inalcançada.
Não desças
Não finjas que não doi mais
Inútil negar asa partida.
Arcanjo abatido, não tens onde pousar.
Foge, assombro, inda é tempo,
Desdobra em esforço a sua medida
Mergulha tua asa no ar.

Publicado no Diário de São Paulo em 5/1/1947.
Foi mantida a grafia original.

Descobri o meu país

Subi a montanha
e no seu topo os anjos me cercaram
e me engrinaldaram a fronte
com as flores do céu.
Azas zumbiam
em harmonias fragílimas
e vozes de arcanjos louvavam a paz.
Derramaram sobre meu corpo
sete balsamos purificadores
e fizeram-me beber
ambrosia e mel.
Banharam-me no rio da música
e eu saí ingénue
como o canto de uma criança.
E depois surgiram novos anjos
e não havia noite
e não havia dia.
E a ambrosia e o nectar
deslisavam com fartura celestial.
E novas canções se entoaram
sempre em louvor a Deus.
E não havia noite
E não havia dia.
E aos poucos cresceu dentro de mim
o desespero
e eu busquei em vão os olhos celestiais.
Eles nada diziam
e cantavam a paz.
E aos poucos uma nostalgia
me enlanguesceu
e eu era o arco distendido
sem a flexa
e eu buscava o ar
sem respirar.
Um anjo me interrogou: mais nectar?
Eu gritei: quero cheiro da terra!
E o anjo me perdoou
E eu cansei de ser perdoada,
eu queria sofrer.
E não havia noite e não havia …
Quebrei minhas azas,
desci a montanha
e vivi na Terra!
………………………………….
Homens amavam
e cansavam do amor.
Homens bebiam sangue
e descobriam
que não desejavam brigar
Entoavam-se canticos místicos
onde só havia a insatisfação.
E depois homens morriam
e todos sabiam que era o fim.
………………………………….
Nem a terra,
nem o céu!
………………………………….
Fechei-me num quarto,
inventei outro Deus,
outro céu, outra terra
e outros homens.

Publicado no jornal carioca Dom Casmurro, em 25/10/1941.
Foi mantida a grafia original.

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