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*Texto retirado daqui!

Os livros de Enrique Vila-Matas estão cheios de escritores: os que desistiram da literatura, os tão obcecados por ela que veem a própria vida em termos literários, os que ele admira e outros tantos que inventou. É quase uma consequência lógica, portanto, que o próprio Vila-Matas tenha virado personagem, com participações mais ou menos discretas em obras recentes de autores como Paul Auster e Alberto Manguel. No Brasil, ele aparece em dois novos livros: o romance “Se um de nós dois morrer”, de Paulo Roberto Pires, que gira em torno de um protagonista fascinado pelo autor catalão e será lançado mês que vem pela Alfaguara, e “Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas” (Editora Modelo de Nuvem), de Kelvin Falcão Klein, um ensaio em forma de diálogo imaginário. Às vésperas de desembarcar no país para uma conferência no 3 Congresso de Jornalismo Cultural, promovido pela revista “Cult” na próxima semana em São Paulo, Vila-Matas se diverte com a coincidência:

— É um castigo, estão fazendo comigo o que fiz com tantos escritores — brinca o autor, em entrevista ao GLOBO por telefone, de sua casa, em Barcelona.

Além dessa conferência, na terça-feira, às 19h, no Sesc Vila Mariana, o escritor fará outra no Instituto Cervantes de São Paulo, no dia seguinte, às 19h30m (ambas mediadas por Paulo Roberto Pires). Na passagem pelo país, lançará o romance “Dubli$” (Cosac Naify, tradução de José Rubens Siqueira), no qual volta a se apropriar da obra de autores clássicos — desta vez os irlandeses James Joyce e Samuel Beckett — para criar uma narrativa original.

O protagonista de “Dublinesca” é Samuel Riba, um editor falido de Barcelona que, desencantado com a decadência do mundo das letras (“A passagem da galáxia Gutenberg para a galáxia Google”, costuma dizer), viaja à capital irlandesa, acompanhado de um grupo de amigos escritores, para celebrar “o funeral da literatura”. A data não poderia ser mais significativa: 16 $junho, o Bloomsday, quando leitores do mundo tudo homenageiam o dia em que se passa a obra-prima de Joyce, “Ulysses”.

Com um protagonista que “apresenta uma notável tendência a ler sua vida como um texto literário”, é natural que “Dublinesca” esteja repleto de trechos de outros livros, alguns evidentes (um capítulo de “Ulysses” tem função importante na trama), outros cifrados e muitos inventados (como os do fictício romancista checo Vilém Vok). Um autor para quem as citações são “vozes e fantasmas que entram e saem sigilosamente dos livros”, como diz o argentino Ri$Piglia na orelha da edição brasileira, Vila-Matas fez da assimilação de textos alheios um método de escrita, como se pode ver em livros como “História abreviada da literatura portátil”, “Bartlebly & cia.” e outros.

— Para mim, a intertextualidade é uma máquina de narrar. Se chego a um beco sem saída, vou à biblioteca, abro um livro e, quando encontro uma frase que eu sublinharia, incluo-a na narrativa, mas transformada, de modo que ela já não pertence a seu autor — explica.

Em “Dublinesca”, Joyce e Beckett são as principais fontes para as reflexões de Vila-Matas so$a história da literatura do século XX, que ele vê como um percurso que vai da “vitalidade” do autor de obras ambiciosas como “Ulysses” e “Finnegans Wake” ao “esgotamento” do escritor que, na peça “Esperando Godot”, concebeu um texto em que “nada acontece, duas vezes”, como já afirmou um crítico. Mas se o próprio Beckett criava a partir dos impasses que o angustiavam — paradoxo resumido na última frase de seu romance “O inominável”: “Não posso continuar, vou continuar”—, então o esgotamento da literatura também tem potencial criativo, aponta Vila-Matas.

— Uma forma de manter a literatura viva é colocá-la sempre em questão. Ao longo da história, o que os escritores têm feito é revitalizá-la colocando-a em crise, do contrário ela cairia fulminada, morta. “Dublinesca” é uma paródia do funeral da literatura. Assim, o livro vira uma grande festa, como naquela canção espanhola que fala de um morto que sai para farrear.

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