[Frases] Hilda Hilst

Tags

Enchei-vos de paciência. Aos poucos a coisa chega ao fim. O caleidoscópio gira sozinho e se espio nem sei do que se trata. Algures estará o espírito. Move-se ubíquo. Move-se múltiplo, melhor, porque o dois sempre cerceia, estou aqui estou lá, e isso não é verdade, estou aqui lá acolá muito perto muito longe dentro. Fora também. Enfim nada é fácil, creia-me, até o oco tem seus mistérios.

(Kadosh) (Citação retirada do livro “Uma superfície de gelo ancorada no riso”, lançamento da Globo Livros)

*Atenção: últimos dias do concurso cultural; participe e concorra a um exemplar do livro!

[Indicações] Livro – José Luís Peixoto

Tags

,

“A minha voz é como este livro: capa, papel, peso medido em gramas. O que quero dizer também é como este livro: mundo subjetivo, existente e inexistente, sugerido pelo significado das palavras” (José Luís Peixoto, “Livro”).

2012 mal começou e já temos um sério candidado a livro do ano: “Livro“, o mais recente romance do português José Luís Peixoto, é uma obra singular! Publicado há pouco mais de uma semana pela Companhia das Letras, a história de Ilídio e Adelaide já é uma velha conhecida dos portugueses: o romance saiu por lá pela Quetzal, em 2010.

Há quase um ano, na primeira edição da Revista Macondo, o autor nos respondeu algumas questões sobre variados assuntos da literatura; dentre aquelas, perguntamos acerca da expectativa que tinha em relação ao lançamento de “Livro”, por aqui, e Peixoto nos disse que valoriza muito a recepção de uma obra pelo público por considerar que é, justamente, a leitura que “completa” aquilo que ele “começa” quando escreve: “Desde muito cedo que encaro a literatura como uma forma de comunicação, como algo que apenas se cumpre após o olhar do outro. Os textos precisam de alguém que se acrescente a eles, que lhes dê um corpo de experiências e de significados“. É assim, portanto, que cada um de nós construirá um “Livro” diferente, com sentidos diferentes.

Em relação à qualidade do romance, creio não haver nenhuma surpresa: Zé Luís já é bastante conhecido pela sua maravilhosa prosa – uma escrita de encher os olhos. Traduzido para mais de uma dúzia de línguas, Peixoto recebe a aclamação do público-leitor por onde é lido. Apesar do (relativamente) pouco tempo de publicações, suas obras – que transitam por diversos gêneros literários, com destaque para os romances e a poesia – ganham cada vez mais espaço para além das fronteiras portuguesas e recebem o devido reconhecimento: já com vários prêmios literários na bagagem, Peixoto é, ainda, homenageado por um que recebe seu nome e reconhece novos talentos da escrita em português.

A história de “Livro” cruza as últimas décadas. Como pano de fundo, há o cenário social, político e econômico de Portugal na segunda metade do século XX, e a emigração maciça dos portugueses para a França, realidade que tanto marcou a história dos dois países. Mas, apesar do panorama social, bastante contextualizado, a narração se estabelece muito mais nas personagens, nas suas histórias pessoais, relações e vivências que caminham e se desenvolvem pelas páginas. Talvez haja bem mais desencontros que encontros. Talvez seja exatamente este o grande representativo da vida. Vemos, em contraposição, uma pequena vila no interior de Portugal, e Paris, metrópole desenvolvida envolta pela arte e literatura. Duas culturas bastante divergentes. Dois mundos que quase se opõem, em extremidades distintas. E, nestes espaços, surgem histórias.

A certa altura do romance, uma das personagens diz: “Livro? Não basta ter capa e páginas cheias de palavras para ser um livro. Não basta ser feito de papel“. E não basta, mesmo. Mas este aqui se caracteriza, definitivamente, como Livro. Livro, com L maiúsculo, com um Enredo muito bem construído, narrativa impecável: é um verdadeiro Romance.

“Livro” é dividido em duas partes: a passagem da primeira para a segunda não marca, somente, um “recorte temporal” na narrativa e a divisão entre um antes e um depois, mas, ainda, uma mudança significativa na construção literária do enredo. Peixoto brinca e “experimenta”, nos presenteia com um modo narrativo revestido de genialidade e originalidade para terminar, com maestria, sua obra. Há, mesmo, de se parabenizar Zé Luís.

Como adendo final, não poderia deixar de destacar algo que salta aos olhos assim que pegamos um exemplar do “Livro” em mãos. A obra de Peixoto já mereceria todos os elogios mesmo que tivesse sido impressa em papel de pão. No entanto, o trabalho primoroso realizado por Flávia Castanheira, para a capa, merece elogios infindáveis. A edição, pela Companhia das Letras, é de extrema qualidade – exemplar magnífico de um livro, “Livro”. Houve apenas um pequeno deslize, na edição do texto, no que concerne à relação história e paginação, mas nada que interfira na qualidade e originalidade da obra. O que fica, portanto, é a indicação: “Livro” é presença de primeira em qualquer lista de leituras.

Livro – José Luís Peixoto

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 284

Literatoon #4

Tags

,

(Especial: Charges de Daniel Clowes, autor que acaba de lançar no Brasil seu livro de quadrinhos “Wilson“, pela Companhia das Letras.)

-=-

-

“The New Yorker” cover – Bookstore

-

“Black Friday”

-

“Vamos lá, pessoal! Façam alguma coisa que valha minha artisticidade! Mostrem que estão vivos! Tenho quadrinhos a desenhar!”

-

(Os demais “Literatoons” você encontra por aqui!)

Continuar lendo »

[Vídeo] O habitante de Pasárgada (Manuel Bandeira, em “Encontro Marcado”)

Tags

O habitante de Pasárgada – instantâneo do Cinema Novo sob as lentes de Joaquim Pedro – apresenta um Manuel Bandeira (1886-1968) solitário, de hábitos frugais: sopra a boca do fogão em busca de um café fresco, de pijama, escreve à máquina; compra jornais e leite nas redondezas, caminha pela Avenida Rio Branco; e recita seus próprios versos, que saltam de sua imensa generosidade como os pães da torradeira no apartamento na Lapa. (Fonte)

Descrição: Vídeo “O Habitante de Pasárgada”, sobre o poeta Manuel Bandeira. O documentário faz parte do DVD “Encontro Marcado com o cinema de Fernando Sabino e David Neves”.

[Retrospectiva] Entrevista com José Luís Peixoto

Tags

,

O escritor portugês José Luís Peixoto acaba de ter o seu mais recente romance, Livro, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Enquanto não escrevemos sobre o título nas “Indicações”, aproveitamos para relembrar a entrevista que Peixoto concedeu ao primeiro número da Revista Macondo.

Macondo: Primeiramente, gostaríamos de agradecê-lo pela disponibilidade em participar desta primeira edição da revista Macondo e pela prontidão em aceitar o nosso convite. Publicado no ano passado em Portugal, seu novo romance Livro chegará ao Brasil, em 2011, pela Companhia das Letras. A partir das críticas veiculadas pela imprensa, a expectativa dos leitores brasileiros é alta. Quais são as suas expectativas em relação ao lançamento de suas obras e à recepção do público em outros países?
José Luis Peixoto: Pessoalmente, dou sempre muito valor à recepção dos meus livros pelos leitores. Valorizo-a e tento sempre que seja o melhor possível. Com esse intuito, disponibilizo-me para entrevistas, conversas, apresentações. Retiro muito prazer dessa vertente do mundo da escrita e, muitas vezes, aprendo com ela. Desde muito cedo que encaro a literatura como uma forma de comunicação, como algo que apenas se cumpre após o olhar do outro. Os textos precisam de alguém que se acrescente a eles, que lhes dê um corpo de experiências e de significados. A minha vontade de encontrar leitores para o que escrevo nasce do respeito que sinto pelos textos que escrevi e que publiquei. Ainda assim, tento não ter expectativas em relação à recepção desses textos. As expectativas colocam o objeto que é alvo desse sentimento numa posição injusta.

M: Você é licenciado em Literatura e Línguas Modernas. No tempo em que cursou a graduação, pesquisas acerca das mais variadas obras faziam parte da realidade acadêmica na qual você estava inserido. Agora os papéis se inverteram e as suas produções passaram a ser objetos de estudo. Como você reage ao se deparar com textos constitutivos da sua fortuna crítica? Você já leu alguma pesquisa sobre suas obras com interpretações e pontos de vista diferentes dos seus, ao concebê-las?
JLP: Eu não sou dono das interpretações que podem ser feitas daquilo que escrevi. Desse modo, sinto-me muito honrado de cada vez que alguém decide estudar aquilo que escrevi. Aprendo com todas essas leituras. Quando são encontradas marcas no texto que transcendem a minha intenção, fico feliz. Através desses olhares, fico a saber mais sobre o texto. Uma vez que não pode ser apontado aquilo que não está lá. O texto é um objeto fixo, mas que pode ser olhado de múltiplas perspectivas. Eu sou humano, imperfeito, e não esgotei todas essas possibilidades. Essa é a riqueza da literatura.

M: Quando você pensa em literatura brasileira: quais autores ou obras vêm à sua cabeça?
JLP: A resposta mais sincera é a mais vaga: são muitos os nomes que me chegam à cabeça quando penso em literatura brasileira. O Brasil, assim como a sua literatura, é muito vasto e diverso. Quanto mais conheço, mas percebo o tanto que me falta conhecer. Ainda assim, não gosto de respostas que não tentem responder à pergunta e, por isso, diria que os nomes que passam com mais frequência pela minha cabeça quando penso em literatura brasileira são João Guimarães Rosa e Clarice Lispector.

M: Ao longo desses anos, sua produção artística perpassou os mais diversos gêneros: contos, poemas, romances, crônicas e peças de teatro. Há algum tipo de trabalho pelo qual ainda não tenha transitado, mas sente vontade de fazê-lo?
JLP: Sinto sempre vontade de ser surpreendido e sinto sempre vontade de trabalhar com outras pessoas. Como tal, gosto muito que me façam propostas. A minha experiência diz-me que quanto mais essas propostas se afastam do meu mundo imediato, mais eu aprendo com elas. Ultimamente, tem sido muito gratificante para mim, por exemplo, escrever letras de canções.

M: Em obras de Vergílio Ferreira (Alegria breve), Antônio Lobo Antunes (As naus), Inês Pedrosa (A eternidade e o desejo) e José Saramago (Ensaio sobre a cegueira), há a presença de alguns personagens cegos. O mesmo ocorre em Nenhum olhar. Embora cada obra tenha as suas peculiaridades e razões de ser, você percebe uma relação entre a constante abordagem da visão, na literatura portuguesa, e a história de Portugal?
JLP: Não tenho uma resposta definitiva para essa questão. Aquilo que sinto é que a cegueira é um símbolo poderoso e, tristemente, muito atual.

M: Certa vez, Gabriel García Márquez disse não ler os seus próprios livros – após estes serem lançados – por ter medo. Qual a sua relação com as obras que já publicou?
JLP: Tenho uma ótima relação com as obras que publiquei. Todas elas partiram de uma decisão muito ponderada. Ainda assim, essa decisão aconteceu num período específico da minha vida e, claro, com a passagem do tempo a minha forma de ver o mundo, os meus critérios vão-se alterando. Essa é uma lei da vida e do tempo, não me incomoda. Sinto-me em paz com aquilo que fui. Em muitos aspetos, continuo a sê-lo e continuo a defende-lo. Quando não é esse o caso, sei que o fui e que, nessa época, não tinha possibilidade de saber mais. Assim, acontece-me reler aquilo que publiquei há anos. Ao fazê-lo, surpreendo-me quase sempre positivamente.

M: Sentimo-nos muito honrados com a oportunidade de entrevistá-lo e de aproximar um pouco mais os leitores brasileiros da sua, embora recente, significativa produção literária. Certamente sua obra não só mantém a tradição da boa qualidade das letras de Portugal ao longo da história como também enriquece a literatura em língua portuguesa, na sua totalidade. Para encerrar, gostaríamos que você deixasse uma mensagem para os novos (e velhos, por que não?) escritores.
JLP: A mensagem é uma única e serve para todas as idades: acreditem, não parem de acreditar. O entusiasmo de imaginar um futuro melhor e de tentar construí-lo a partir daqui, do presente, vale o esforço intelectual e físico de superar as vozes do desânimo.

*Ao final das perguntas, como é de costume na seção “Entrevista”, pedimos para que José Luís Peixoto listasse três livros que, de alguma forma, foram importantes para a sua vida. São eles:

  • Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa
  • Memorial do Convento – José Saramago
  • Livro do Desassossego – Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

Quer saber mais sobre o autor? Visite a sua página oficial: [x]

Continuar lendo »

As “10 regras para escrever romances” de Jonathan Franzen

Tags

,

Certa vez, colocamos por aqui algumas dicas de Gabriel García Márquez para escrever bem na internet. Escolhemos, agora, as “10 regras para escrever romances” colocadas por Jonathan Franzen – autor de Liberdade e As correções, e presença confirmada na FLIP de 2012. E você, caro leitor-escritor, concorda com o americano?

1 – O leitor é um amigo, e não um adversário ou um espectador.

2 – A ficção que não seja uma aventura pessoal do autor diante do que é assustador ou desconhecido não vale a pena ser escrita, para nada – a não ser por dinheiro.

3 – Nunca use a palavra “então” como conjunção – temos o “e” para esse propósito. Substituir “e” por “então” é uma não-solução preguiçosa ou surda para o problema do escritor com muitos “e”s na página.

4 – Escreva em terceira pessoa, a menos que haja uma “voz” realmente distinta do narrador mostrando-se irresistível.

5 – Quando a informação se torna livre ou muito acessível, pesquisas volumosas para o romance são desvalorizadas junto com ele.

6 – A ficção autobiográfica mais pura possível requer, ainda assim, invenções puras. Ninguém jamais escreveu uma história mais autobiográfica que “A Metamorfose”.

7 – Você enxerga mais se mantendo num lugar do que perseguindo algo.

8 – É bastante duvidoso que qualquer pessoa com conexão de internet no seu local de trabalho esteja escrevendo um bom romance.

9 – Verbos interessantes raramente são muito interessantes.

10 – Você tem que amar antes de poder ser implacável.

(Originalmente publicado no The Guardian)

Continuar lendo »

[Crônica] A palavra – Pablo Neruda

Tags

,

… Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam … Prosterno-me diante delas… Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as … Amo tanto as palavras … As inesperadas … As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem … Vocábulos amados … Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho … Persigo algumas palavras … São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema … Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas … E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as … Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda … Tudo está na palavra … Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu … Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes … São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada … Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos … Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo … Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas… Por onde passavam a terra ficava arrasada… Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes… o idioma. Saímos perdendo… Saímos ganhando… Levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras.

*Butifarra: espécie de chouriço ou lingüiça feita principalmente na Catalunha, Valência e Baleares. (N. da T.)

Pablo Neruda, em “Confesso que vivi”

_________________________________

[Concurso Cultural] Uma superfície de gelo ancorada no riso – Hilda Hilst

Tags

Conforme anunciado ontem, ao final do post com a indicação do livro acima, lançamos hoje, em parceria com a Globo Livros, um concurso cultural que presenteará o vencedor com um exemplar de “Uma superfície de gelo ancorada no riso“.

Para participar, basta responder à pergunta:

Em passagem de “A obscena senhora D.” lemos que paixão é a grossa artéria jorrando volúpia e ilusão, é a boca que pronuncia o mundo, púrpura sobre a tua camada de emoções, escarlate sobre a tua vida, paixão é esse aberto do teu peito, e também teu deserto. E para você, o que é paixão?

A resposta deverá ser publicada no espaço para comentários deste post; o participante deverá informar, ainda, nome completo e um endereço de e-mail válido. O prazo para concorrer ao livro se encerra no dia 25 de fevereiro e o resultado será divulgado no dia seguinte, aqui no blog e também via facebook e twitter!

A promoção é um oferecimento da Globo Livros, responsável pela obra de Hilda Hilst desde 2001. Para saber sobre os lançamentos e ficar ligado em outras promoções dos livros da casa, curta a página da editora no facebook e siga-a no twitter!

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 419 other followers